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Felippe Scozzafave e Guilherme Padin, do R7

Se as primeiras palavras que vêm à cabeça são pena e compaixão, você ainda não conhece a história destes atletas. É assim que eles querem ser vistos. E ponto. Paratletas no máximo. Quem se adaptou às suas eficientes deficiências foi o próprio esporte e assim, sem se importar com os olhos julgadores, eles estão nas pistas, nos ginásios, nas academias, nos tatames, nas piscinas...

Os Jogos Parapan-Americanos Lima 2019 são uma boa oportunidade para conhecer vidas que foram transformadas pelo esporte. E se até o final deste texto pena e compaixão não forem substituídas por admiração e respeito, garantimos o ingresso de volta.

Cada um com a sua deficiência – que no Parapan, assim como na Paralimpíada, não necessariamente é física e também pode ser mental – Verônica Hipólito (atletismo), Marliane Santos (tênis de mesa), Bruno Rodrigues da Mota (taekwondo), Mariana D´Andrea (levantamento de peso) e Susana Schnarndorf (natação) construíram sua própria história. Todas elas com o pano de fundo no esporte ainda que, pelo crivo dos outros, “falte uma perna” ou “um braço”.

Entre os entrevistados pelo R7, nenhum deles aceita o repetido rótulo de coitadinho. Tampouco o de herói. Segundo eles mesmos, são simplesmente pessoas que vencem todos os dias as dificuldades na vida ou na competição. Se ninguém trocaria um membro por uma medalha, nenhum deles tampouco trocaria uma medalha por um membro de volta.

Ela venceu o mundo e 200 tumores
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Sebastião Moreira/EFE/Arte R7

Verônica Hipólito sabe como ninguém o que é vencer. Aos 23 anos, já ganhou o Mundial Paralímpico de Atletismo, foi prata e bronze na Paralimpíada Rio 2016 e superou mais de 200 tumores e um AVC.

Exemplo de resiliência, ela praticou futebol, futsal, caratê, taekwondo, vôlei, natação, judô... Nesta última modalidade, ainda criança, chegou a ser campeã estadual e dos Jogos Escolares. Mas a descoberta de um tumor no cérebro a impediu de disputar esportes nos quais corresse o risco de levar pancadas acima da cintura. Assim se descobriu velocista. Verônica repetiu para si mesma que seria a garota mais rápida da cidade, mas não sabia que encararia muitos obstáculos para finalmente ser a mais veloz. Do mundo.

Aos 15 anos, Verônica sofreu um AVC e ficou com os movimentos do lado direito do corpo limitados. Passo a passo, se recuperou e conheceu o paratletismo. Em 2013, aos 17, foi disputar o Mundial da modalidade e não tomou conhecimento das adversárias: campeã dos 200 m rasos e vice-campeã dos 100 m rasos. Obstáculos superados e mais um sonho realizado. No Pan de Toronto, dois anos depois, mais três ouros e uma prata.

"O mais importante é que eu sempre volto a correr. Volto porque me divirto, me sinto bem"
Verônica Hipólito

“Entre 2013 e 2017, eu tratava um tumor no cérebro com remédios, mas ele ficou resistente aos medicamentos. Então, passei por mais uma operação em 2017 e perdi o ano. Ficaram alguns resquícios do tumor e aí tive de operar em 2018 de novo. Foi a cirurgia mais complicada. Tive broncopneumonia, algumas crises na recuperação. Foi difícil”, disse a atleta, de duas medalhas de prata em Lima 2019 (100 e 200 m).

Foram 200 tumores no intestino grosso e a retirada de 90% do órgão para se recuperar. Em cerca de um ano encontrou tempo para se recuperar da cirurgia, voltar a treinar e, na Paralimpíada Rio 2016, faturar uma prata (100 m) e um bronze (400 m).

“O mais importante é que, depois disso tudo, no final, eu sempre volto a correr. Volto porque me divirto, me sinto bem”, garantiu.

Cadeira de rodas não é empecilho
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Alê Cabral/Divulgação/CBP/Arte R7

"O esporte representa tudo para mim. Através dele veio a minha superação. Hoje eu consigo sair sozinha, viajar sozinha. Já conheço outros países. Tudo isso graças ao esporte". É dessa forma que Marliane Santos, de 27 anos, enxerga a oportunidade que recebeu ao conhecer o tênis de mesa, esporte que pratica há cinco anos, menos da metade do tempo em que se tornou paraplégica.

A atleta explica que um verme da esquistossomose se alojou na sua medula e, desde então, ficou paraplégica. A fala simples para algo bem complexo só é possível graças à entrega ao esporte. Entrega essa que teve até uma mudança de cidade. Da cadeira de rodas, atesta que não há empecilho para seguir um sonho.

"Na cidade que eu morava em Minas Gerais não tinha muitas opções de esportes. Então o meu irmão me trouxe para São Paulo e me apresentou a uma gestora do esporte. Ela me fez o convite e eu vi isso como uma oportunidade", relembrou ela, que teve no tênis de mesa o seu primeiro contato com o esporte paralímpico.

"O esporte representa tudo para mim. Através dele veio a minha superação"
Marliane Santos

"Com o tênis de mesa foi amor à primeira vista", comemora a jogadora, medalhas de prata (individual) e ouro (equipes), em sua primeira edição de Jogos Parapan-Americanos.

"É uma competição muito forte. Para mim a expectativa é a melhor possível. Como eu treino no CPB há sete meses com o técnico da seleção, recebo muitas informações de adversárias e estou confiante em um bom resultado."

Brasil potência
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Arte/R7
Do sofá de casa para o Parapan
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Reprodução/Instagram/Arte R7

Foi em uma tarde, deitado no sofá de casa, que Bruno Rodrigues da Mota decidiu que se tornaria paratleta. O baiano, que nasceu com má formação congênita no braço, assistia aos Jogos Paralímpicos do Rio 2016 quando decidiu dar novo rumo à sua vida.

“Lembro que disse para a minha mãe que gostaria de ser paratleta e ela achou que eu estava brincando, até porque eu estava trabalhando na época. Mas eu comecei a pesquisar quais esportes poderia disputar. De início, veio a natação. Depois, pensei no atletismo. Me identifiquei bastante e liguei para o Centro Paralímpico Brasileiro (CPB). Eles me indicaram um técnico de atletismo de Santo André e eu comecei a treinar", lembrou o atleta que começa a competir nesta sexta (30).

“O esporte só agregou na minha vida. Antes dele eu era uma pessoa e hoje sou alguém muito melhor”
Bruno Rodrigues da Mota

Porém, não é no atletismo que Bruno disputará seu primeiro Parapan. Influenciado por Alan Nascimento, que foi contratado pelo CPB após mostrar seu projeto social no Esporte Fantástico, da Record TV, ele migrou para o parataekwondo.

"Sempre tive vontade de fazer uma luta. E no parataekwondo foi amor à primeira vista", disse Bruno, que não liga para o pouco tempo no esporte. "O esporte só agregou na minha vida. Antes de praticar, eu vivia muito estressado, brigava muito com a minha mãe. Depois que entrei no esporte, melhorou minha ansiedade. O esporte mudou a minha vida por completo. Antes dele eu era uma pessoa e hoje sou alguém muito melhor."

O esporte fez ela aceitar 'diferença'
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Ivo Felipe/Divulgação/CBP/Arte R7

Mariana D'Andrea é o típico caso de quem se encontrou através de uma prática esportiva. Depois de nascer com nanismo, a atleta de Itu nunca se aceitou totalmente, até que foi descoberta pelo treinador Valdeci Lopes, que viu nela um grande potencial de brilhar.

O começo no esporte veio quase por acaso. Ela contou que passava em frente à academia onde hoje treina e o treinador foi até a calçada fazer o convite para apresentar o esporte e começar a treinar. Mariana começa a briga por medalhas em Lima 2019 nesta quinta.

"O esporte serviu para eu me conhecer. Saber quem eu realmente sou. Depois que eu conheci o esporte, mudei totalmente. Antes eu não me aceitava”, disse.

"Depois que eu conheci o esporte, mudei totalmente. Antes eu não me aceitava"
Mariana D´Andrea

“De início, eu não fiquei muito entusiasmada, mas a minha família começou a me incentivar. O treinador falou que ali podia estar o futuro, que eu tinha uma genética muito boa e eu me convenci e comecei a treinar. Logo já adquiri o amor pelo halterofilismo."

E a visão do treinador estava mesmo correta, já que Mariana atualmente detém o recorde americano na categoria até 67 kg feminina, erguendo incríveis 120 kg em julho de 2019. Cerca de três anos antes, ainda novata no halterofilismo, ela disputou os Jogos Paralímpicos do Rio.

"Tinha começado no esporte naquele ano e já fui convocada para a Paralimpíada. O resultado não foi bom, mas isso serviu como experiência e aprendizado para as outras competições", disse a paratleta, antes de ir para seu primeiro Parapan. “Estou ansiosa. A gente quer ver, conhecer. Esse é o campeonato mais importante das Américas e eu espero brigar por uma medalha de ouro", disse a confiante atleta, que começa a competir em Lima neste dia 29.

De 'dois anos de vida' para o título mundial
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Daniel Zappe/Divulgação/Arte R7

“Você tem dois anos de vida”. Foi isso que Susana Schnarndorf ouviu dos médicos quando foi diagnosticada com múltipla atrofia dos sistemas, uma doença degenerativa extremamente rara e que não tem cura.

Àquela altura, a gaúcha, então com 37 anos, se consagrava cada vez mais como uma das grandes triatletas da história do Brasil. Pentacampeã brasileira na modalidade e vencedora ainda de seis edições do Ironman, a atleta "viu seu mundo cair", mas talvez o amor pelo esporte faça com que ela, 14 anos após o diagnóstico, represente o Brasil em seu terceiro Parapan.

"O esporte me ajudou 100%. Quando eu descobri a doença e comecei a ter os primeiros sintomas, em 2005, os médicos me deram dois anos de vida e eu estou com 14 anos de doença. Com certeza o esporte que me fez continuar. A doença continua, mas eu sou uma pessoa muito feliz. O esporte me proporcionou tanta coisa boa depois disso tudo, então a gente vai seguindo em frente", comemorou.

"Os médicos me deram dois anos de vida e eu estou com 14 anos de doença"
Susana Schnarndorf

Após a confirmação da doença, Susana entrou em um período de depressão profunda e foram cerca de cinco anos tentando encontrar uma explicação para seu problema de saúde. Em 2008, viveu a pior fase, quando praticamente perdeu a coordenação motora do lado esquerdo do corpo. Dois anos depois, ingressou na equipe de natação paralímpica, e, desde então, acumula conquistas, com direito a se tornar campeã mundial nos 100 m peito e ser eleita a melhor atleta feminina no Prêmio Paralímpicos 2013.

E se Susana já é uma referência para os paratletas, muito de sua expectativa de sucesso em Lima 2019 está focada no Centro Paralímpico Brasileiro, inaugurado pouco depois da Paralimpíada do Rio e que ela considera a sua segunda casa.

"Temos toda a estrutura de treino, de fisioterapia, alimentação e médicos também. Temos tudo à disposição a qualquer momento. Isso aqui é minha segunda casa. Eu treino em dois períodos por dia, de manhã e à tarde. Depois faço academia e musculação. Isso faz toda a diferença para o atleta", disse.

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Alê Cabral/Divulgação/CPB/Arte R7

Reportagem: Felippe Scozzafave e Guilherme Padin
Edição: André Avelar e Tatiana Chiari
Arte: Sabrina Cessarovice