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Por Luís Adorno, do Núcleo de Jornalismo Investigativo da RecordTV

O brasileiro Trevor Rodrigues, de 40 anos, é o primeiro brasileiro extraditado aos Estados Unidos pelo crime de tráfico de drogas. De acordo com informações da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), obtidas com exclusividade pelo Núcleo de Jornalismo Investigativo da RecordTV, ele integrou quadrilhas especializadas em traficar cocaína desde a costa da Colômbia até estados do sul dos Estados Unidos.

Investigado pela DEA, a agência norte-americana antidrogas, Rodrigues foi detido em fevereiro de 2019 em Bogotá, capital da Colômbia, e, depois, em março de 2020, foi extraditado para os Estados Unidos. Atualmente, ele cumpre pena em uma prisão em Ohio. Rodrigues não tem advogado brasileiro constituído. A reportagem tentou contatar seus familiares, mas as ligações não foram atendidas. Aos policiais, ele alegou não fazer parte de nenhuma organização criminosa.

De acordo com as investigações da DEA, Rodrigues integrava um grupo criminoso identificado como “Real”. Esse grupo é ligado ao narcotraficante Marcos de Jesus Figueroa, o Marquitos Figueroa, e ao ex-governador de Guajira Juan Francisco Gomez Cerchar, o Kiko Gomez. Os dois colombianos são acusados de liderar um grupo de extermínio paramilitar que assassinou, desde os anos de 1990, mais de 130 pessoas naquele país.

“Marquitos é possivelmente a maior liderança criminal da fronteira costeira colombo-venezuelana”

segundo a Abin

Segundo a Abin, “Marquitos é possivelmente a maior liderança criminal da fronteira costeira colombo-venezuelana”. Ele foi detido em Boa Vista (RR) em 22 de outubro de 2014. Naquela data, ele alegou estar na cidade apenas visitando a namorada brasileira e negou a prática de atividades delitivas em território brasileiro.

Marquito Figueiroa (Reprodução)
Marquito Figueiroa Reprodução

A Abin, desde então, monitora a possibilidade de que Trevor tenha passado a integrar o grupo de Marquitos quando o colombiano frequentou Roraima com frequência. "O engajamento de brasileiro em organização colombiana deste porte consiste em evento inédito, o que tornou o episódio objeto de interesse da Agência Brasileira de Inteligência", informou a Abin.

"A permanência no Brasil de célula vinculada à organização de Marquitos Figueroa configura risco significativo, em virtude do porte e da centralidade dessa quadrilha no tráfico de drogas com destinos aos EUA", complementou a agência.

Também são verificados riscos relacionados à consolidação de grandes rotas de droga no estado de Roraima, o que agravaria uma crise estabelecida no momento no local decorrente da migração massiva de pessoas da Venezuela, além de problemas originados pela presença intensiva de integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital).

Carlos Magno Rodrigues, coordenador de Análise de Redes Criminosas Transnacionais da Abin, afirma que o acompanhamento da agência continuou após a prisão de Rodrigues: "Nós temos análises que indicam que somente na região de Roraima existam, pelo menos, 600 pessoas envolvidas em algum tipo de crime, como tráfico de drogas, contrabando de imigrantes, contrabando, descaminho."

Prisão de Trevor (Prisão de Trevor)
Prisão de Trevor Prisão de Trevor
A prisão de Trevor

Trevor foi detido em Barranquila numa operação que também deteve os irmãos Manuel Francisco, conhecido como Borroncho, e Rafael Mejía Cuadrado, conhecido como Mono Pecas. As detenções foram feitas pela Direção de Investigação Criminal e Interpol da Polícia Nacional da Colômbia. Durante a ação, foram apreendidos 873 kg de cloridrato de cocaína e cerca de US$ 1 milhão.

Ao ser preso, Trevor relatou que costuma adquirir calçados na Venezuela para vender na Colômbia, onde manteria uma namorada. Segundo ele, teria sido preso por engano devido às relações que mantinha. Um vídeo, obtido pela reportagem, mostra policiais colombianos lendo para Trevor seu mandado de prisão.

Na ordem de prisão, o policial colombiano lê para Trevor que ele era requerido pela autoridade judicial dos Estados Unidos por ter exportado mais quilos de cocaína com intenção e conhecimento de que o ato seria considerado ilegal nos Estados Unidos.

De acordo com Gustavo Zortéa da Silva, defensor público federal responsável pelo setor de extradições, explica que Trevor só foi extraditado por ter sido detido na Colômbia. Segundo ele, a Constituição brasileira determina que nenhum brasileiro nato pode ser extraditado uma vez detido em território nacional.

“Se ele for brasileiro nato e se tivesse sido preso no Brasil, ele [Rodrigues] não seria extraditado. Ele só foi extraditado porque efetivamente estava em outro território que não o território da nacionalidade originária dele, que é o Brasil”, disse.

Padrão de vida discreto

Natural da cidade de Bonfim, na fronteira de Roraima com a cidade de Lethem, na Guiana, Trevor é casado, tem três filhos e uma casa própria na sua cidade natal. Além disso, ele é dono de uma empresa denominada “Comercial Trevor Rodrigues” e nunca constou nos registros da polícia roraimense como suspeito de qualquer crime que fosse.

“Trevor adotava, portanto, perfil discreto, operando a comercialização de grandes quantidades de droga ao mesmo tempo em que se mantinha fora do espectro de detecção das autoridades locais”, afirma a Abin.

Filho de pai guianês, Trevor fala inglês fluentemente. Em seus registros de viagem, constam diversas saídas do Brasil com destino a países como Estados Unidos, Portugal e Holanda. Há ainda registros de travessia da fronteira entre Tabatinga (AM) e a cidade de Letícia, na Colômbia, no trapézio amazônico.

Aos seus conhecidos na cidade de Bonfim, um acompanhamento feito por agentes da Abin demonstrou que Trevor afirmava ter sido contratado por um estrangeiro, de origem árabe ou indiana, e que era proprietário de uma empresa na área de pesca, o que justificaria seus longos períodos fora do Brasil.

De acordo com o juiz Esdras Silva Pinto, titular da Vara Única de Bonfim (RR), cidade natal de Rodrigues, disse que não se surpreendeu ao saber que uma pessoa da cidade esteve envolvida em um crime como o apontado pela polícia dos Estados Unidos. “Bonfim, que fica na fronteira com a Guiana Inglesa, é o ponto que entra droga e arma, e onde sai veículos roubados em Roraima e transportados para Guiana e, a partir de lá, haver um desmanche”, afirmou.

“Não me assusta populares dessa região serem arregimentados pelo crime para facilitar esse tipo de prática de crime internacional”, complementou o magistrado. Segundo ele, apesar dos esforços da PF (Polícia Federal) e da Polícia Civil no estado, a ação policial ainda está aquém da necessária na região

Lancha Go Fast usada para o tráfico de drogas da Colombia para os EUA (Reprodução)
Lancha Go Fast usada para o tráfico de drogas da Colombia para os EUA Reprodução

Conteúdo: Núcleo de Jornalismo Investigativo 
Reportagem: Luís Adorno
Colaboração: Márcio Neves
Coordenação: Thiago Samora
Chefe de Redação: André Caramante