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Kaique Dalapola, do R7

Durante a noite mais fria do ano, quando a cidade de São Paulo registrou mínima de 2,6°C, Alexander Rodrigues de Oliveira, de 21 anos, recorreu à cachaça para se esquentar em uma das esquinas da região nobre de Pinheiros, na zona oeste da capital paulista.

Alexander se abrigou, como em quase todos os outros dias, em uma pequena barraca forrada com cobertores, próximo a um fogão adaptado, alimentado com etanol. Ele divide o espaço com um amigo, o tio e uma vira-lata filhote.

Mesmo a poucos metros de um dos centros de acolhida municipais, Alexander e seus companheiros de barraca preferem a rua, a menos que esteja chovendo. “O problema de lá é que tem muitas regras, então a gente prefere ficar aqui mais livre”, diz.

Digite a legenda da foto aqui (Reinaldo Canato/R7)
Digite a legenda da foto aqui Reinaldo Canato/R7

Todos os anos, quando as temperaturas começam a cair, os olhares se voltam para as quase 25 mil pessoas que vivem em situação de rua na capital paulista. Além de se proteger do coronavírus, esse público precisa encontrar saídas para se aquecer durante as noites geladas - veja mais fotos ao final da reportagem.

Ciente dessa necessidade, a prefeitura paulistana iniciou, no último dia 30 de abril, o Plano de Contingência para Situações de Baixas Temperaturas com o objetivo de aumentar o número de acolhimentos e doações de cobertores para a população da rua. Segundo a gestão municipal, a ação é reforçada sempre que a temperatura atingir um patamar igual ou inferior a 13°C ou sensação térmica equivalente.

Para a ex-secretária de Assistência Social em São Paulo e advogada Luciana Temer, o trabalho desenvolvido com a população de rua é muito complexo e diverso, mas quando chega o período de frio só existe um caminho: “Tem que botar todo mundo para dentro de algum lugar”.

"O emprego pode ser suficiente para uma mudança de vida”

Luciana Temer, advogada e ex-secretária de Assistência Social de São Paulo

Nessa mesma linha, Vinícius Lima, ativista de direitos humanos e cofundador do SP Invisível, projeto que conta histórias de pessoas em situação de rua, afirma que o maior desafio com a chegada das baixas temperaturas deste ano é conseguir lugar para colocar todos em um curto espaço de tempo. “O frio realmente mata, tira vidas nas ruas todos os anos”, conta Lima.

Alexander vive com o tio, um amigo e um filhote numa barraca (Reinaldo Canato/R7)
Alexander vive com o tio, um amigo e um filhote numa barraca Reinaldo Canato/R7

O albergue da prefeitura a que Alexander vai nos dias chuvosos fica na rua Cardeal Arcoverde, a duas quadras de onde ele costuma erguer barraca. O Centro de Acolhida para Adultos - Esperança é um dos 100 locais que a prefeitura dispõe para acolhimento da população em situação de rua.

A unidade tem 110 moradores cadastrados, mas, diariamente, recebe uma média de 130, pois as vagas extras são preenchidas por pessoas encaminhadas de forma emergencial, sobretudo nos dias mais frio do ano, como ocorreu nesta semana.

O gaúcho Elisio vende balas e junta dinheiro para visitar a mãe (Reinaldo Canato/R7)
O gaúcho Elisio vende balas e junta dinheiro para visitar a mãe Reinaldo Canato/R7

Há três meses atendido pela unidade, Elísio Claudino Mendes da Silva, de 56 anos, elogia o lugar por auxiliar em uma reestruturação da vida das pessoas. Gaúcho do pequeno município de Alegrete, vive nas ruas desde 2013 e decidiu tentar sobreviver em São Paulo no início de 2020. “Aqui, eu vendo bala na sinaleira [semáforo], e fujo da polícia que tenta me impedir de trabalhar”, conta.

Com dezenas de comprovantes de depósitos bancários guardados na carteira, diz que desde que começou a vender balas, 90 dias atrás, consegue juntar dinheiro para realizar a própria vontade no fim do ano: “Já tenho R$ 1.200, que é para eu comprar passagem de ida e volta para visitar minha mãe no Natal”.

Para começar a dar a entrevista, Elísio disse que só queria que um ponto fosse destacado:

“Pede para o pessoal que for doar, trazer diretamente nas nossas mãos. O frio é a maior dificuldade que enfrentamos e, muitas vezes, os agasalhos doados por pessoas boas vão parar em brechós”

Elísio Claudino Silva, 56 anos

Elísio está na rua por falta de emprego, o que atribui à idade. Mas, 30 anos mais novo do que ele, Gileno de Castro Júnior, aos 27, também enfrenta a mesma situação por falta de trabalho desde o início da pandemia e afirma que “quanto mais o tempo vai passando, mais nos tornamos invisíveis e fica difícil de arrumar outro emprego”.

Gileno de Castro Júnior , 27 anos (Reinaldo Canato/R7)
Gileno de Castro Júnior , 27 anos Reinaldo Canato/R7

Gileno tem conseguido enfrentar o que considera ser o maior inimigo de quem mora na rua, o frio, por ser um dos cadastrados para ser atendido pelo centro de acolhimento da prefeitura. Quanto à fome, diz acreditar que é possível superar com a solidariedade das pessoas, mas sente falta de ofertas de estudo e emprego para pessoas em situação como a dele.

“Quanto mais o tempo vai passando, mais nos tornamos invisíveis e fica difícil de arrumar outro emprego”

Gileno de Castro Júnior, 27 anos

Nascido em Ruy Barbosa, no interior de Bahia, ele se mudou para Santos, no litoral paulista, aos 9 anos de idade com a mãe adotiva. Quando tinha 17 anos, a mãe morreu e precisou seguir sozinho. Decidiu tentar a vida em São Paulo e, ao longo dos anos, atuou como copeiro e garçom em diversas lanchonetes e restaurantes. Em 2019, arrumou um emprego em um comércio de Moema, bairro nobre da zona sul de São Paulo. Morava em uma casa alugada e conseguia tocar a vida.

A situação mudou com a chegada da pandemia. “Fui demitido porque o restaurante reduziu o horário e só consegui pagar mais 3  meses de aluguel. Depois disso, sem emprego, precisei vir morar na rua”, conta. “Mas eu sei que ainda não acabou, isso está sendo um aprendizado e eu vou voltar a ser feliz, ter emprego e uma vida”, garante.

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Reinaldo Canato/R7

“Aqui, os ricos tem mais para dar”, diz Anderson Felipe, de 29 anos, outro frequentador do centro de acolhida e das ruas de Pinheiros. Assim como Gileno, ele também foi levado para esta situação pelo desemprego e enfrenta problemas com consumo de álcool e drogas.

Em situação de rua desde o início deste ano, Anderson trabalhava como marceneiro e morava em uma favela na região do Grajaú, periferia da zona sul de São Paulo. Quando ficou sem teto, optou pela área nobre da zona oeste onde afirma que consegue receber doações para se manter sem fome, mas não tem oportunidades para trabalhar e progredir. “Só fica na mesma condição: temos comida que as pessoas dão e temos o albergue também, principalmente, para o frio, mas não conseguimos nada muito mais do que isso”, explica.

Na avaliação de Luciana Temer, os casos como de Elísio, Anderson e Gileno devem ser tratados com prioridade. "Esse grupo em que a questão do desemprego levou para rua, na minha opinião, é o que precisa ser atendido primeiro, porque é o que se tem mais facilidade para tirar da rua, por estar lá por uma questão exclusivamente financeira. Então, o emprego pode ser suficiente para uma mudança de vida”, argumenta.

A Prefeitura de São Paulo explica que, além das 23 mil vagas disponibilizadas nos 100 centros de acolhida, a população em situação de rua da capital conta com 2.159 novas vagas criadas na pandemia, sendo que 692 estão em oito equipamentos emergenciais em centros esportivos, 400 em unidades de CEU (Centro Educacional Unificado), 260 em um Centro de Acolhida Especial para Famílias e 807 vagas para hospedagem de idosos em situação de rua já acolhidos na rede socioassistencial em 13 hotéis (12 na região central, sendo um deles transformado em Centro de Acolhida Especial para Idosos e um na região norte).

Desse total de novas vagas criadas, 1.667 estão em atividade. Segundo a prefeitura, esses equipamentos funcionam 24 horas por dia e são voltados a diversos perfis.

As pessoas com suspeita ou diagnóstico de covid-19 com sintomas leves são encaminhadas para o Centro de Acolhida Especial na Vila Clementino, na zona sul, com 50 vagas, ou para um Centro de Acolhida na Lapa, zona oeste, com 40 vagas para a doença e 60 para a Operação Baixas Temperatura, informa a prefeitura.

A gestão municipal ainda afirma que “os equipamentos têm suas estruturas higienizadas constantemente e são mantidos com as janelas abertas. Nos quartos, as camas foram colocadas em distância segura. Todos os eventos agendados nos serviços foram cancelados e as visitas, suspensas. Todas essas medidas contribuem para diminuir o risco de contágio”.


Reportagem: Kaique Dalapola
Edição: Patrícia Junqueira e Raphael Hakime
Fotos: Reinaldo Canato