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Eduardo Marini, do R7, em Brasília

— Como vocês vendem tanto barco, lancha e jet ski naquela poça d’água?

Rogério Fayad, dono da Premier Jet, uma das principais lojas especializadas em embarcações de Brasília, hoje acha graça do misto de provocação e brincadeira disparado com frequência por colegas de ramo em feiras náuticas frequentadas por ele em cidades e estados litorâneos brasileiros.

A “poça d’água”, na estocada inundada de exagero da turma, é o Lago Paranoá, maior ponto de atração de gente de todas as classes sociais do Distrito Federal, de moradores a turistas, para lazer, esporte, divertimento, reunião, namoro e contemplação em seu interior e entorno.

E de muita, mas muita navegação, em um universo náutico com gente sorridente, animada e não raro turbinada, a bordo de lanchas poderosas, veleiros vistosos e motos aquáticas insinuantes. Para entender essa realidade, o R7 passou alguns dias entre navegadores, donos de marina, proprietários de embarcações e de lojas náuticas, praticantes de esportes e frequentadores das margens do Paranoá.

Frota marítima do lago Paranoá (Eduardo Marini/R7)
Frota marítima do lago Paranoá Eduardo Marini/R7

A ironia dos colegas com Fayad descortina uma situação curiosa, até impressionante, construída nos 61 anos de existência oficial da capital federal – e do lago. Brasília, como se sabe, não tem mar. O Paranoá é um lago artificial de água doce, resultado do represamento do rio do mesmo nome e de outros dois, bem menores.

Possui 48 quilômetros quadrados de espelho d’água, perímetro (volta completa) de margem de 80 quilômetros, 40 quilômetros de distância entre seus dois maiores extremos e, na média, 500 milhões de metros cúbicos de volume d’água, quantidade suficiente para encher 500 mil caixas de mil litros.

Em resumo, apresenta números imensamente expressivos diante de poças e mesmo de lagos respeitáveis do Brasil e do mundo. Mas, diante dos 7.941 quilômetros de extensão do litoral atlântico brasileiro, 18,5 vezes o tamanho da Rodovia Presidente Dutra, ligação entre Rio e São Paulo, deve-se contentar honrosamente em ser apenas um belo ponto de água doce no cerrado seco e quente do centro-oeste do país. No reforço dos exemplos, apenas a Baía de Guanabara, no Estado do Rio de Janeiro, guarda 1,8 bilhão de metros cúbicos de água, 3,6 vezes a quantidade abrigada na pérola brasiliense.

Difícil encontrar espaço vago no pier  (Eduardo Marini/R7)
Difícil encontrar espaço vago no pier Eduardo Marini/R7

Ainda assim, o Paranoá contribui decisivamente para que Brasília ostente a quarta frota náutica do país, atrás apenas dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná. De pequenos jet skis a lanchas imensas, o setor da Marinha que envolve o Distrito Federal tem mais de 52 mil embarcações registradas.

“Esse total, é verdade, envolve registros de unidades instaladas em rios e pequenos lagos de Goiás e outros locais da região. Antes era tudo era feito junto”, explica Luiz Taddei, dono da Marina Premium, na Asa Sul, e vice-presidente da ANA-DF, a associação de empresários do setor no DF. “Mas hoje, entre as estacionadas em clubes e marinas e as colocadas e retiradas em períodos, pode-se afirmar com tranquilidade que o lago movimenta, no mínimo, entre 12 mil e 15 mil embarcações de todos os tipos”, acrescenta.

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Durante a visita à Premium, Safira brilhava ancorada às margens plácidas do Paranoá ocupadas pela Marina. Com 56 pés (17,06 metros) de comprimento e três andares, este exemplar da grife Cimitarra é atualmente a maior embarcação a sacolejar com leveza nas águas calmas do lago brasiliense.

Safira faz jus ao batismo de gema preciosa. Os proprietários não estavam na Premium, mas um deles autorizou o R7 a visitar e fotografar o brinquedão. As curvas externas sinuosas, o espaço interno e os equipamentos, conferem o poder de algo capaz de arrancar de um visitante da marina o seguinte comentário: “não é nem um apartamento; é um edifício”. Está avaliada em R$ 3 milhões — mas uma igualzinha zero bala, a depender dos equipamentos incorporados, pode bater no dobro do valor.

A joia flutuante Safira, avaliada em R$ 3 milhões, é uma das maiores do Paranoá (Eduardo Marini/R7)
A joia flutuante Safira, avaliada em R$ 3 milhões, é uma das maiores do Paranoá Eduardo Marini/R7

Na Villa Náutica, outra marina do lago, também com representação para venda de grifes náuticas, reluzia uma lancha Sessa de 54 pés (16,46 metros), trazida da Itália por um empresário brasiliense que pediu para não ser identificado. “Custou R$ 6 milhões em 2013”, conta um funcionário da casa que teve acesso ao processo de importação. “O design, a qualidade dos materiais internos e externos e a tecnologia incorporada jogam o preço dessa unidade no céu”. Os envolvidos na reportagem foram unânimes em afirmar: atualmente, é a embarcação mais cara a singrar o Paranoá.

Mas há lugar nas águas do lago para navegadores e donos de barco comprometidos com investimentos menos profundos. Na Premier, o empresário Israel Pinheiro, de 49 anos, convidou o R7 para “ajudar a testar”, na companhia de seu filho Luan e do amigo Anderson Vieira, sua mais recente paquera, uma lancha de 31 pés (9,5 metros), avaliada em R$ 385 mil. A reportagem acompanhou a primeira jornada de Pinheiro — ou Russão, como ele prefere — a bordo de seu objeto de desejo.

O empresário Russão durante o test drive da lancha (Eduardo Marini/R7)
O empresário Russão durante o test drive da lancha Eduardo Marini/R7

O agradável passeio, conduzido por um funcionário do complexo até as proximidades da represa, tomada àquela tarde de sol forte e céu limpo por dezenas de barcos, mistura de som e sobra de impulsos rebolativos nas redondezas, durou cerca de três horas. Após algumas cervejas e mergulhos, o trio voltou animado à marina disposto a fechar o negócio. “Acho que essa resolve”, cedeu Russão. “Trabalhamos demais. Precisamos pensar também no lazer”, ponderou Vieira.

Em outro dia, na Villa Náutica, o construtor naval paulista Ramon Alonso reuniu a família para um passeio de final de semana no lago em seu VCat de 29,5 pés (nove metros) estalando de novo, comprado recentemente. Preferiu não falar de preço. Mas certamente desembolsou troco diante do custo do Almirante, o navio de luxo construído e vendido por ele com “capacidade para 20 passageiros e 16 tripulantes, quatro quartos, camarote, cozinha completa, restaurante climatizado, tevê a cabo e telefone por satélite 24 horas”, entre outros mimos. O Almirante faz atualmente a alegria de grupos de turistas e pesca no Pantanal.

O construtor naval Ramon com a família à bordo do VCat (Eduardo Marini/R7)
O construtor naval Ramon com a família à bordo do VCat Eduardo Marini/R7

No refeitório da Premium, um produtor rural gaúcho, dono de 400 alqueires de terra goianos, “de 48,4 mil metros quadrados cada um”, em Luis Eduardo Magalhães, no extremo oeste da Bahia, normalmente cobertos de pés de soja, diverte-se com prato de carne com mandioca enquanto espera familiares e amigos para um rolezinho em sua lancha Fokker 305, com 30,5 pés (9,3 metros), arrematada por R$ 750 mil.

“Brasília fica no meio do caminho entre Luis Eduardo Magalhães e Uberlândia, em Minas Gerais, onde vive minha filha. Nos feriados e finais de semana a gente costuma fazer uma bagunça aqui”, diz Mazzutti, o sobrenome, como pediu para ser chamado.

Mazzutti tem seu xodó há apenas cinco meses, mas pensa em trocá-lo por outro ainda mais robusto: um Focker 377, de 37,7 pés (11,50 metros) de comprimento. Coisinha linda: nada que R$ 1,7 milhão não resolva. “Taddei está me convencendo. Vamos ver”, tenta virar o rumo do barco da conversa para o lado o produtor.

Mazzuti e o novo xodó, o Focker 377 (Eduardo Marini/R7)
Mazzuti e o novo xodó, o Focker 377 Eduardo Marini/R7

No Paranoá, com acesso pela Premium, também é possível ter aulas iniciais, com os atletas Talita Flausino e Marcos Protta, de um esporte que é cara da mansidão do lago: o wakesurf. Nele, o praticante, com uma prancha de surfe, é rebocado em uma lancha. Para quem se lembrou do wakeboard, a diferença é que, na versão surfe, a prancha fica solta nos pés, como na versão tradicional. Em determinado momento, o praticante solta a corda que o prende à lancha e surfa na onda produzida pelo motor potente da embarcação.

Para gerar essas ondas, o barco precisa ser empurrado por um motor valente. O da lancha de Talita, pentacampeã brasileira da modalidade (R$ 450 mil a dela; cerca de R$ 1,3 milhão o mesmo modelo zerado), que, ao lado do campeão mundial Protta, convidou a reportagem do R7 para uma sessão de fotos da dupla no Paranoá, é um Corvette de oito cilindros e 450 cavalos de potência.

“São condições para sustentar a prancha e o atleta”, explica Protta. Não por acaso, Talita, paulista de Santo André, e seu professor Protta, fluminense de Volta Redonda, vivem em Brasília. Coladinho no Paranoá.

Talita surfa na onda provocada pela lancha (Eduardo Marini/R7)
Talita surfa na onda provocada pela lancha Eduardo Marini/R7

Para quem não conta com tantos cavalos de potência na conta bancária, é possível comprar embarcações em sociedade, nas aquisições compartilhadas em cotas. A Premier Jet é uma das empresas a oferecer, além das vendas à vista, unidades em quatro ou oito divisões. Para os jet skis, cada cota vai de R$ 7 mil a R$ 40 mil. No caso das lanchas, variam entre R$ 40 mil e R$ 130 mil.

“Uma cota dá direito mensal a um dia de uso em finais de semana e dois durante a semana. O valor pago é um bem do proprietário, que pode adquirir mais de uma fatia. A gestão do barco no lago tem um custo mensal fixo, que varia de R$ 600 a R$ 2 mil”, explica Fayad.

Os clubes náuticos também exercem um papel importante no pacotão de lazer do Paranoá, sobretudo para navegadores e familiares dispostos a unir lazer, esporte e convívio social às atividades no lago. Os maiores e mais tradicionais são o Iate Clube de Brasília e o Cota Mil.

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Inaugurado em 4 de abril de 1960, cinco dias antes da fundação oficial de Brasília, o Iate Clube controla um dos mais bem equipados setores náuticos no entorno do Paranoá. Tem como patrono o ex-presidente Juscelino Kubitschek, criador do Distrito Federal.

“A estrutura é forte para quem tem embarcação, mas faz parte de um projeto ainda maior, que oferece aos sócios lazer, esportes, shows, cursos, divertimento e cultura”, explica ao R7 o comodoro (responsável técnico) do Iate Clube, o velejador Flávio Pinheiro, carioca estabelecido em Brasília desde 1974.

Para ficar apenas nos veleiros amados por Pinheiro, os velejadores Torben Grael (dois ouros, uma prata e dois bronzes em jogos olímpicos), sua filha Martine (dois ouros) e seu irmão Lars (dois bronzes) são sócios do Iate. Uma condição, diga-se, que exige alguma ventania na vela ou HP no motor: um título, quando disponível para venda direta ou leilão, custa entre R$ 85 mil e R$ 95 mil.

“O Paranoá alegra turistas e é o quintal simbólico da casa do brasiliense. E também dos moradores do DF, seja em mergulho nas prainhas, nos passeios coletivos de barco ou a bordo em qualquer outra embarcação”, resume o jornalista e empresário João Carlos Bertolucci, presidente da Associação Náutica, Esportiva e do Turismo de Brasília, a Asbranaut.

A reluzente e milionária Sessa vinda da Itália para as águas do Paranoá (Eduardo Marini/R7)
A reluzente e milionária Sessa vinda da Itália para as águas do Paranoá Eduardo Marini/R7

Ele e seus parceiros e associados trabalham na Asbranaut para a organização do setor náutico de recreação, lazer e turismo no Paranoá. Isso envolve passeios turísticos, aluguel de embarcações e atividades dentro ou no entorno do lago.

Entre os vários projetos incentivados pela associação estão a construção de um boulevard náutico na Ponte JK, de uma marina pública e a melhoria da estrutura de recepção de turistas e moradores no pedaço público mais sofisticado da orla, o Pontão do Lago Sul, com seus restaurantes e espaços de lazer, e também em outros pontos do lago.

Bertolucci lembra com humor de uma ação popular realizada anos atrás, quando o governo do DF ordenou a retirada de todos os ancoradouros, pontos de desembarque náutico e marinas particulares de mansões em torno no Paranoá que impediam o livre trânsito à beira do lago.

“O que estava nos primeiros trinta metros a partir do início do espelho d’água teve ordem de remoção por lei”, conta ele. “Houve muita resistência de gente graúda, mas, ao fim e ao cabo, a legislação foi cumprida em sua maior parte”, lembra ele. Para comemorar, moradores do DF favoráveis à medida levaram embalagens com bebidas para as margens do lago por alguns dias, no que ficou conhecido por aqui como o Movimento do Isoporzinho.

Foi, em parte, o triunfo do pedaço de amantes do Paranoá no DF que consegue lugar ao sol e às águas mesmo sem dispor de jet, veleiro, lancha ou iate. Em um final de tarde, a reportagem visitou um dos mais populares e importantes desses pontos: a prainha da Ermida Dom Bosco. 

Nos finais de semana de tempo firme – algo longe de ser raro em um DF cada vez “amigo” do sol e “menos ligado” a nuvens, chuvas e trovoadas – a prainha costuma ser disputada para piqueniques, reuniões de turmas, visita de famílias e passeios de casais.

“Não conheço todos, mas este aqui deve ser o pôr do sol mais bonito do mundo”, especula o motorista João Costa, de 36 anos, sentado em um pedaço de madeira. “Parei na volta de uma corrida para admirar. Mas, aos domingos, quando consigo tirar uma folga, passo as tardes por aqui com minha filha e a namorada”, conta.

À sua frente, o que resta de azul no amplo céu do cerrado cola na sobra de amarelão que produz sombras nas linhas da cidade, mas ainda risca um pedaço do espelho espelho d’água manso do lago.

Em Brasília e no Distrito Federal, ao menos em conceito, o Paranoá, a exemplo do sol, nasce para todos.