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Marcos Rogério Lopes, do R7

Fonte Boa é uma daquelas cidades típicas do interior do Amazonas: farta em território (12,1 mil quilômetros quadrados, oito vezes a cidade de São Paulo), econômica em habitantes (17,6 mil) e com população orgulhosa da vida tranquila levada entre as águas e praias dos rios (neste caso, o Solimões) e o pedaço de selva amazônica que cerca o conjunto de ruas e casas modestas.

Distante 678 quilômetros de Manaus em linha reta, é famosa pelos 350 lagos que tornam sua geografia única e por exibir um dos melhores índices do estado na pescaria do pirarucu, um dos símbolos amazonenses. Pesca e agricultura são responsáveis, na prática, por quase tudo o que é produzido no lugar.

A cidade tem sua versão própria de um festival cultural conhecido do estado, o de Parintins. Em vez dos bois Garantido e Caprichoso, Fonte Boa vibra com Tira-Prosa e Corajoso, também reconhecidos como patrimônios culturais do Estado do Amazonas.

Mas, no dia 17 de janeiro, uma sexta-feira, a cidade abandonou a rotina marcada pelo verde pacato para fazer sua estreia no mundo da barbárie. O temporal fora de controle começou a cair na véspera, quinta-feira (16), quando Ronald Gomes Borges, de 28 anos, foi preso por estuprar e matar a pequena Eucleciane, de dez anos. Ele morava no bairro Belarmino Lins e ganhava a vida vendendo rosquinhas pela cidade.

A queima do corpo do estuprador Ronald foi acompanhada por crianças  (Reprodução)
A queima do corpo do estuprador Ronald foi acompanhada por crianças Reprodução

Ele teria aproveitado que estava só em casa com a menina, que ajudava a família a preparar os produtos, para oferecer R$ 40 a ela em troca de sexo. Eucleciane tentou fugir, mas foi impedida por Borges, que a matou e escondeu o corpo debaixo de sua cama.

Foragido da polícia pela acusação de um outro estupro, em 2017, Ronald arrumou-se após o crime e foi trabalhar. Almoçou normalmente e, à tarde, jogou futebol com os amigos. Por volta de 19h, contou à esposa o ocorrido e fugiu em seguida. Foi capturado uma hora e meia depois em uma mata próxima à cidade. A mulher de Ronald comunicou o fato à polícia. Avisou onde estava o corpo, deixou a casa simples em que vivia com ele e partiu rumo à vizinha Tefé. Saiu às pressas, deixando tudo para trás. Tudo mesmo – não só os bens materiais.

Ronald foi para a cadeia por volta de 21h. A notícia se espalhou, e cerca de 50 moradores começaram a protestar minutos depois na porta delegacia. De início, a voz da autoridade falou mais alto e a polícia conseguiu preservar o prédio. Mas o destino se encarregaria de mostrar que, a partir da captura, a vida de Ronald passaria a ter a marcação não mais de dias, e sim de horas. Na sexta-feira (17), o número de revoltados ficou entre cem e 200, até que 20 deles conseguiram entrar na delegacia. Levado para fora, o estuprador foi espancado e teve cabeça, braços e pernas cortados e queimados.

Digite a legenda da foto aqui (Arte/R7)
Digite a legenda da foto aqui Arte/R7

Em vídeos postados em redes sociais, rapazes e moças vibram aos berros enquanto assistem ao progresso da fogueira bizarra. No dia seguinte, as cinzas do corpo foram recolhidas em meio ao lixo, a golpes de vassoura, numa praça da cidade.

“Se havia criminosos entre os que participaram da morte de Ronald ou presenciaram a cena, a maioria era gente sem passagem pela polícia. Esses moradores vão sofrer porque avançaram os próprios limites. Importa menos a lei exterior e mais a internalizada. A cicatriz de Fonte Boa talvez nunca mais desapareça”
Cláudia Sampaio, psicóloga, pós-doutora em Psicologia Social

Fonte Boa entrou no mapa das comunidades do país capazes de reações brutais como as que seus habitantes acompanhavam, até então, apenas pelos veículos de comunicação.

Como contar aos filhos, com equilíbrio e isenção, o que aconteceu? O que a menina que riscou o fósforo e acendeu a fogueira vai dizer a seus familiares quando eles virem o vídeo?

Na opinião de Cláudia Sampaio, pós-doutora em psicologia social e comunitária e professora da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), as demonstrações de raiva nesse e em outros episódios de violência coletiva extrema escondem pessoas que passarão, depois, por um processo de implosão sentimental e irão se questionar eticamente, pelo resto da vida, sobre o que fizeram.

“Se havia criminosos entre os que participaram da morte de Ronald ou presenciaram a cena, a maioria era gente sem passagem pela polícia. Esses moradores vão sofrer porque avançaram os próprios limites. Importa menos a lei exterior e mais a internalizada. A cicatriz de Fonte Boa talvez nunca mais desapareça”, diz a psicóloga.

Na avaliação de Cláudia, apesar da brutalidade cometida pelo estuprador, é imprescindível divulgar todos os fatos como aberrações, e não passagens normais. “As pessoas agiam diante da fogueira como se estivessem em uma celebração, um grande feito. Era um fenômeno de massa. Há uma ausência de responsabilidade geral no grupo, um ato irracional que cobra um preço alto lá na frente”, diz. “Não podemos admitir o mal porque todos os moradores estão de alguma forma afetados. Precisam admitir o erro e analisar.”

Aceitar a radicalização é o pior caminho a seguir, destaca a psicóloga. “Ele cometeu um crime imperdoável, é claro, mas a população foi tão bárbara quanto, tratando-o como um objeto para despejar raiva e frustração. Em um primeiro momento, as pessoas vão tentar justificar o ato e negar que passaram do ponto. Algo na linha do ‘não fizemos nada errado’ e do ‘ele merecia isso porque estuprou e matou’. Mas logo depois, quando a ficha cair, virá o abatimento e a solidão”, acredita.

O morador José (nome fictício a pedido do entrevistado) acompanhou os episódios. “Daqui para frente, sempre que alguém for ameaçado ou sofrer injustiça, vai para cima resolver sozinho ou em grupo. A gente aprendeu que não pode contar mesmo com a polícia”, acredita. “Era uma bomba prestes a explodir. Aqui bandido errava e dois meses depois estava solto."

Ele conta o que diz ter visto. “A população ficou revoltada. Marcou de voltar para pegar o Ronald. Já se falava, sim, em matar o estuprador. Na sexta-feira, mais ou menos cinco da tarde (18h no horário de Brasília), a turma chegou na porta da delegacia. Era muita gente contra dez policiais, no máximo. Alguns da frente, umas 20 a 30 pessoas, ameaçavam tocar fogo e invadir o local, mas não houve invasão.”

Ao contrário da versão da polícia, José nega que 20 moradores tenham entrado à força. “Mentira. Os policiais deram tiros para o alto e, acho, ficaram sem munição. Quando viram que não segurariam o povo, um agente veio até a entrada e anunciou que iriam entregar o preso. Na hora que ouvi aquilo, me desesperei. Se entregarem o rapaz, vai ser uma desgraça maior ainda’, pensei.”

José continua o relato. “Eram onze e dez da noite (horário local) quando entraram. Pelo que pude ver, mataram o rapaz dentro da delegacia mesmo. Saiu desacordado, ensanguentado, com um rasgo na barriga e a perna bem machucada”, conta. “Aí foi tudo muito rápido. Alguns batiam no corpo imóvel com pedaço de pau. Jogaram uma pedra enorme na cabeça dele, chutavam, xingavam, um horror. Não vi quando esquartejaram, mas uma hora começaram a gritar e decidiram cortar os genitais. Pediram uma faca e ela logo apareceu."

José diz ter deixado o local à meia-noite e meia. “Chorando. Não sabia o que pensar e falar. Estava chocado. Triste, muito triste, assustado. Saí, mas bastante gente continuou ali, atacando os pedaços do corpo no chão. Não dormi naquela noite e nem sabia o que falar com minha família. Só pensava que tinha gente que eu pensava conhecer envolvida naquilo. Era outro ser humano, apesar de tudo.”

Ronald tirou a paz de uma cidade amazonense ao estuprar e matar uma menina de dez anos (Divulgação)
Ronald tirou a paz de uma cidade amazonense ao estuprar e matar uma menina de dez anos Divulgação

E acrescenta: “Confesso não entender como tudo aquilo aconteceu. Tem hora que parece não ser real. Ontem mesmo chorei pensando no que vi. Basta tocar no assunto que várias cenas voltam à cabeça. É como se eu vivesse tudo outra vez”.

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Arte/R7

Fonte Boa amanheceu em choque no sábado (18). Enquanto funcionários da prefeitura recolhiam o que sobrou do fogo na praça da Bíblia, o assunto tomava ruas e comércios da cidade. “Tem muita gente com medo. Parece que perdemos a sensação de segurança e não conhecemos mais nossos próprios vizinhos”, relatou ao R7 um comerciante local. "Não acho o amazonense violento, mas estamos cansados de tanto descaso e injustiça." Ele lamentou saber que crianças acompanharam a reação contra Ronald. "Se os pais acham isso normal, está tudo perdido."

A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) organizou uma entrevista coletiva às pressas para tentar explicar o episódio. “O Estado não pode permitir que a população promova essa desordem. As pessoas serão identificadas e punidas, pois também cometeram crime", prometeu o delegado-geral adjunto da Polícia Civil, Orlando Amaral. “Vamos identificar nas imagens. Se tiver que efetuar prisão em flagrante, vamos efetuar, senão vamos trabalhar com prisão preventiva”, afirmou.

O chefe de Estado Maior da Polícia Militar, coronel Ronaldo Negreiros, garantiu que os agentes agiram da forma correta, apesar do registro de testemunhas de que foram feitos dois disparos. “A reação foi à altura. O policial teve que fazer uso da força na mesma proporção”, afirmou.

Os presentes apresentam outra versão. Durante o tumulto, um tiro teria sido disparado pela Polícia Militar diretamente contra um dos manifestantes. De acordo com declarações de familiares de Geuly Cavalcante Oliveira, de 21 anos, ele foi baleado na coxa. Transferido para Manaus, não resistiu e morreu na quarta-feira (22). “Foi a própria polícia que o matou. Não pode ficar assim. Nem sei como vou sobreviver sem ele”, disse a mãe de Oliveira. Durante o velório, parentes do rapaz cogitaram invadir a casa do policial militar, também morador do município, mas foram dissuadidos.

De acordo com o delegado Mariolino Brito, diretor de Departamento de Polícia do Interior (DPI), quatro pessoas envolvidas no homicídio de Ronald foram identificadas, mas nenhuma presa. Os manifestantes, que ainda não podem ter os nomes revelados, estão sendo indiciados por homicídio, vilipêndio de cadáver, tentativa de homicídio, incitação ao crime, apologia ao crime e dano qualificado. Um reforço policial de 40 soldados permanecerá em Fonte Boa por tempo indeterminado.

A SSP-AM desmente a denúncia de que Ronald foi entregue aos manifestantes. "Se a polícia fosse reagir, além do que reagiu, para evitar o resgate, o prejuízo seria até maior para a população. Só não foi possível evitar a retirada", argumentou o delegado Amaral.

Em julho de 2018, outro crime no Amazonas, em Borba, ao sul da capital, levou à cadeia 13 manifestantes que depredaram e invadiram a carceragem da polícia para retirar e castigar um preso. Gabriel Lima Cardoso, 18 anos, suspeito de estuprar e matar a facadas uma adolescente de 14 anos, foi linchado e queimado vivo numa via pública. A ação foi filmada por dezenas de moradores. A Polícia Civil informou que 17 pessoas foram identificadas e indiciadas no caso por homicídio qualificado, incêndio, dano ao patrimônio público e lesão corporal. O inquérito foi remetido à Justiça. Treze deles teriam sido presos em Borba e transferidos para Manaus.

Em Fonte Boa, os episódios deixaram um rastro de três mortos e um número quase incalculável de vítimas de traumas variados. A primeira foi a criança estuprada e morta, que cedo conheceu o lado doentio e perverso dos adultos. Em seguida veio Ronald, usado para aplacar a sede de justiça de uma comunidade inteira, seguido por Geuly, baleado na porta da delegacia, e por toda a população, presente ou não, que terá que conviver com o fantasma do esquartejamento.

O prefeito da cidade, Gilberto Lisboa (MDB), publicou duas notas sobre os acontecimentos, uma delas dedicada à mãe de Eucleciane. “Deveria ser proibido filho morrer antes dos pais”, escreveu. Ele se solidarizou com a dor da família da menina morta, mas em nenhum momento se referiu à fogueira macabra alimentada por alguns de seus eleitores. Procurado pelo R7, Lisboa não atendeu ligações para comentar o assunto.

A psicóloga Cláudia é pessimista em relação aos desdobramentos. “Não creio que o assunto será levado a sério por autoridades ou entidades." Ela é enfática: não há outra solução a não ser encarar a verdade. “A tendência é o assunto virar um tabu no município. Após o silêncio, talvez se torne uma história forte da vida de Fonte Boa, com a responsabilização de figuras isoladas, num movimento motivado pela vergonha e por uma tentativa de cada um de se eximir da culpa, apontando o dedo para os que fizeram, em sua opinião, algo mais grave do que ele”, comenta.

Cláudia Sampaio coloca outro tijolo na construção da tragédia que se abateu sobre o sudoeste amazonense. “Essa mãe da menina, em vez de se sentir confortada com a morte do rapaz, terá seu direito ao luto prejudicado. Ela viu sua tristeza pessoal transformar-se num evento maléfico sem controle e perturbador, e isso aumenta o desolamento”, observa. “Ela precisava ter a comunidade ao seu lado, com amparo e compreensão. As pessoas que praticaram essa barbárie não a ajudaram em nada, pelo contrário.”

"Deveria ser proibido filho morrer antes dos pais"
Gilberto Lisboa, prefeito de Fonte Boa

A psicóloga diz que os reflexos do dia 17 de janeiro de 2020 poderão ir além do registro de casos de depressão ou de moradores com dificuldades para aceitar o episódio. “Há a chance de terem impacto na saúde coletiva, com ruptura de vínculos da comunidade e dificuldade de desenvolvimento da solidariedade entre os grupos.”

Dito de outra forma, o ato coletivo que pareceu unir, mesmo que para um propósito negativo, servirá no fim para distanciar a população fonteboense. “Aumentará a desconfiança e exigirá uma capacidade de compreensão quase impossível de ser alcançada por todos do grupo sem orientação profissional. Esse município precisa definir que identidade quer ter. Porque a partir de agora ele poderá ser associado por muitos também ao revanchismo e à barbárie”, acredita a psicóloga. Tudo já custou caro. Que o preço ainda a ser pago seja menor.

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Arte/R7

Coordenação: Tatiana Chiari
Reportagem: Marcos Rogério Lopes
Apoio: Luciana Mastrorosa
Arte: Matheus Vigliar