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Isabelle Amaral, do R7

Mesmo com depressão, falta de apetite, um emagrecimento repentino e de luto pelo marido que morreu há um ano de Covid-19 após três décadas de casamento, Maria de Fátima ainda encontra forças para lutar por ter notícias do filho, Robson Gomes, que desapareceu no dia 27 de março de 2008, aos 24 anos. Empunhando um cartaz com nome, foto, uma projeção de como o rapaz estaria hoje com 37 anos e alguns contatos, a mulher faz buscas por Robson pelas ruas e pela internet, após 14 anos do desaparecimento. A cada dois domingos do mês, ela se reúne na praça da Sé, no centro de São Paulo, com um grupo de mais de 6.000 mães de diversos estados brasileiros que compartilham a saga junto às autoridades policiais na busca por informações sobre o paradeiro de parentes, mas, sobretudo, a esperança de encontrá-los com vida. 

Para ela, a procura incansável é uma “tortura”. Sem notícias, os pensamentos e as especulações sobre as condições que o filho pode estar enfrentando a consomem. “Se alguém morre, você sabe como acontece, onde [a pessoa] está enterrada, e tenta seguir a vida apesar disso, mas, quando a pessoa está desaparecida há tanto tempo, como o meu filho, a gente vive um luto em vida", diz Maria de Fátima. "Fico pensando se ele está na rua, passando fome, se foi raptado, torturado... Eu não sei. É um milhão de pensamentos, e a gente imagina o pior”, relatou.

A angústia e a incerteza são sentimentos compartilhados por famílias de pelo menos 65 mil pessoas desaparecidas em todo o território nacional. Os dados são do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e correspondem ao ano de 2021. O número mostra um aumento de 3,2% em relação a 2020. Naquele ano, o país contabilizava 62.913 brasileiros desaparecidos. O Conselho Nacional do Ministério Público, que trabalha com a mesma base de dados, informa que pelo menos 35% são pessoas de até 17 anos.

Grupo Mães da Sé se reúne para compartilhar a angústia da busca por parentes (Edu Garcia/R7 - 10.07.2022)
Grupo Mães da Sé se reúne para compartilhar a angústia da busca por parentes Edu Garcia/R7 - 10.07.2022

De óculos de sol e uma blusa com a foto de Robson, Maria de Fátima se encontra quinzenalmente com as outras integrantes do Mães da Sé, um grupo de mulheres que buscam pelos filhos desaparecidos, não importa o tempo, e levantam cartazes na região do centro de São Paulo. Lá, elas aproveitam para desabafar e encontrar afeto e acolhimento em meio à dor.

Ivanise Esperidião é a fundadora do grupo. A filha dela, Fabiana, desapareceu aos 14 anos, no dia 23 de dezembro de 1995, enquanto voltava da casa de uma amiga, na zona norte da capital. Após quase 30 anos, a mulher ainda resiste e batalha, agora não somente pela filha, mas por centenas de outras mães, pais, irmãos e amigos que chegam a ela para buscar apoio para enfrentar o mesmo drama.

Se alguém morre, você sabe como acontece, onde [a pessoa] está enterrada, e tenta seguir a vida apesar disso, mas, quando a pessoa está desaparecida, a gente vive um luto em vida"

Maria de Fátima, mãe

O suporte e a assistência que as mães e parentes encontram no grupo em nada se assemelham às respostas que recebem dos órgãos públicos. A reportagem do R7 Estúdio entrevistou algumas mulheres durante o encontro das Mães da Sé, e todas relataram as mesmas impressões sobre o trabalho da polícia. Segundo elas, o tratamento é superficial e burocrático. A sensação é que as autoridades tratam o problema com indiferença.

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Arte R7

Em alguns casos, a abordagem da polícia reflete julgamentos morais sobre essa parcela da população. No episódio da filha de Ivanise, assim que ela foi à delegacia para registrar o desaparecimento de Fabiana, recebeu do delegado uma resposta que não esperava. “Ele disse: ‘Volta para a casa, mãe, a sua filha deve estar com algum 'namoradinho' por aí, logo ela volta’. Minha filha nem tinha o hábito de ficar na rua, então, eu mesma mobilizei algumas pessoas para me ajudar nas buscas."

Apesar dos esforços de Ivanise, Fabiana nunca mais foi vista. Sempre que a polícia liga para dizer que encontrou alguém semelhante ou para informar alguma pista descoberta, a esperança de Ivanise se acende. Mas, logo se apaga quando, tempos depois, fica comprovado que os indícios não correspondem à sua filha.

Como alguém pode simplesmente desaparecer?

De acordo com o MP (Ministério Público), uma pessoa é considerada desaparecida quando não pode ser localizada nos lugares que costumava frequentar, nem encontrada de qualquer outra forma, independentemente do período em que estiver sumida. Mas quais os fatores sociais que estão por trás do desaparecimento?

Essa foi a pergunta do diretor do canal Desaparecidos e produtor audiovisual Anderson Jesus quando começou a pesquisar o tema, há oito anos. Ele, que conversou com aproximadamente 200 famílias que vivem o drama e registrou mais de cem casos, afirma que "um acontecimento é mais misterioso do que o outro” e, quando a investigação tem início, uma série de fatores são descobertos.

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Arte R7

O desaparecimento, segundo Anderson, pode estar relacionado ao tráfico de pessoas para trabalho escravo e ao rapto de crianças na maternidade ou em mercados e feiras para serem vendidas a famílias no exterior que não podem ter filhos. Nesses casos, de acordo com ele, os interessados pagam entre 30 mil e 40 mil dólares para adotar a criança, já que em alguns países o processo de adoção é extenso e burocrático.

Há ainda casos de pessoas que se envolvem com drogas e, por vergonha de voltar para a casa, preferem manter a família sem notícias. Outros desaparecimentos são de moradores em situação de rua que acabam morrendo como indigentes, além de pessoas raptadas para ser sacrificadas em rituais.

A socióloga Simone Jesus, formada pelo Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás e policial civil, que é coordenadora de Investigação de Desaparecidos da Secretaria de Segurança Pública do estado, explica que a fragilidade e a insuficiência dos dados do país sobre desaparecimento impossibilitam a compreensão dos fatores. Segundo ela, a falta de interesse dos governos de criar políticas públicas para elucidar os casos prejudica as investigações.

Diferentes versões para a mesma dor

A falta de respostas e de transparência que cerca cada caso de desaparecimento gera diferentes versões, tanto entre as autoridades quanto entre familiares e amigos. A fotógrafa Lilia Lima, por exemplo, afirma que as histórias distintas contadas por quem estava responsável pelo filho, Davi da Silva, de 11 anos, em 28 de março de 2021, quando ele foi visto pela última vez, aumentam ainda mais sua dor.

O menino havia ficado com a tia para que a mãe fizesse um ensaio fotográfico, na pequena cidade de Itiúba (BA). Segundo Lilia, ela deixou Davi com a irmã às 16h20 e voltou para buscar a criança às 17h40. “Foi coisa de duas horinhas e, quando eu voltei, minha irmã e meus pais, que moram próximo, disseram que ele havia subido a serra e desaparecido.”

Lilia deixou o filho Davi com a irmã e nunca mais o encontrou (Arquivo pessoal)
Lilia deixou o filho Davi com a irmã e nunca mais o encontrou Arquivo pessoal

A irmã de Lilia afirma que foi atrás do menino assim que ele saiu correndo da casa, mas viu um clarão e, em segundos, não avistou mais o sobrinho. A única pista que restou de Davi foi um chinelo na casa de um vizinho, onde ele brincava com um colega mais cedo. Desesperada e sem acreditar na versão da família, Lilia tentou entender o que realmente aconteceu com Davi, fazendo algumas perguntas à criança que brincava com ele momentos antes do desaparecimento. Ela conta que Davi estava ouvindo vozes, mas não deu outros detalhes.

Meu coração diz que ele está vivo em algum lugar. Ainda vou reencontrar meu filho

Lilia Lima, fotógrafa

Helicópteros, cães da polícia e equipes do Corpo de Bombeiros auxiliaram nas buscas, que duraram três meses, mas sem indícios. “É como se o Davi tivesse simplesmente desaparecido do mapa”, disse a mãe. Apesar do sofrimento constante e da angústia de não obter respostas sobre o filho, Lilia ainda espera reencontrá-lo. “Minha esperança é que alguém tenha visto ele andando pela serra e levado ele, achando que estava perdido, não sei. Meu coração diz que ele está vivo em algum lugar, eu ainda vou reencontrar o meu filho”, afirmou.

Entre choros e pausas na conversa, Lilia tenta manter o tom de voz para explicar como teve a rotina interrompida após o desaparecimento. “Minha vida parou desde que ele sumiu”, disse. Hoje, a fotógrafa não consegue trabalhar, deixou de se alimentar como antes e se sente constantemente infeliz sem a presença de Davi. “Deixei o quarto dele intacto porque é aqui que eu consigo ter boas lembranças”, desafabou.

Anos sem respostas

“A essa altura, quero encontrar meu filho vivo ou morto.” O tom inconformado de Iraci Mendes reflete a falta de respostas e pistas sobre o paradeiro do filho, Ivan Rodrigo, que desapareceu quando tinha 15 anos, em 2003, no bairro Jardim  Ângela, na zona sul da capital paulista.

Cansada das especulações, Iraci relatou o sofrimento de viver sem notícias do filho há 19 anos. “No começo eu tinha esperança, com a mobilização da minha família, amigos e polícia para encontrá-lo. Agora, depois de tanto tempo, eu nem sei mais o que o meu coração sente, se ele está vivo e bem, sofrendo em algum lugar ou até morto. A gente tenta fingir que está tudo bem, seguir, mas é uma dor enorme que só quem passa sabe”, desabafou. Mesmo sem acreditar que possa rever Ivan, Iraci segue na luta por respostas.

A cada dia, Iraci Mendes relata ter menos esperanças de encontrar o filho Ivan (Edu Garcia/R7 - 10.07.2022)
A cada dia, Iraci Mendes relata ter menos esperanças de encontrar o filho Ivan Edu Garcia/R7 - 10.07.2022

Apesar do tempo, muitos desses casos de pessoas desaparecidas não ganham repercussão. A socióloga Simone Jesus afirma que o que influencia e pode gerar maior impacto social são as circunstâncias que levam uma pessoa a sumir.

No começo, eu tinha esperança, com a mobilização da minha família, dos amigos e da polícia para encontrá-lo. Agora, depois de tanto tempo, nem sei mais o que o meu coração sente

Iraci Mendes, mãe

Um caso que chocou o Brasil – e foi parcialmente desvendado em junho – é o de Leandro Bossi, criança que desapareceu em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba, no litoral do Paraná, quando tinha 7 anos. A família passou 30 anos sem respostas, até que, em junho deste ano, a ossada do menino foi encontrada.

O exame, realizado pela PF (Polícia Federal), confirmou compatibilidade de 99,9% com o DNA da mãe dele. Apesar da identificação, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) do Paraná não soube informar onde e como a ossada de Leandro foi encontrada. A pasta disse apenas que o material estava armazenado pela polícia científica do estado.

A ossada submetida aos exames foi localizada um ano após o desaparecimento de Leandro, entretanto a polícia afirmou à época que era de uma menina de 15 anos. Descobrir hoje que a ossada que nos disseram que era feminina é de Leandro comprova que eles [as autoridades públicas] nos torturaram por 30 anos”, desabafou Lucas Bossi, irmão de Leandro, à Record TV. A suspeita da polícia é que o menino tenha sido morto em um ritual, mas a Secretaria de Segurança não informou se as investigações serão reabertas devido à data do crime.

Vivências e repostas como essas são, de acordo com o CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha), órgão que apoia e ajuda as famílias de pessoas desaparecidas, experiências traumatizantes, de risco, desamparo e incompreensão. Por isso, familiares de desaparecidos têm a vida impactada em quase todas as esferas. Além disso, segundo o comitê, quanto mais ambíguas ou obscuras são as circunstâncias em que a pessoa desapareceu, mais intensas são a dúvida e a angústia.

Cada uma das mães e cada familiar esperam, de alguma forma, ter visibilidade em casos de parentes desaparecidos. Segundo as mães, a repercussão pode ajudá-las a ter mais informações sobre os filhos. A expectativa é que alguém possa tê-los visto. Outras têm esperança de que os próprios filhos possam assistir ao noticiário ou ver alguma publicação na internet com os apelos por notícias e, assim, se identificar.

O trabalho da polícia e dos órgãos competentes

Em âmbito nacional, o Ministério da Justiça e Segurança Pública mobilizou, em junho do ano passado, a Campanha Nacional de Coleta de DNA de Familiares de Pessoas Desaparecidas em todos os estados do Brasil. O objetivo era possibilitar a identificação de pessoas desaparecidas por meio de exames e bancos de perfis genéticos. Algumas pessoas conseguem localizar entes desaparecidos em cidades distantes, pelas ruas, desorientados ou até mesmo sem vida. 

Em São Paulo, o delegado Aldo Marcos Ferreira, responsável pela 5ª Delegacia de Pessoas Desaparecidas, localizada no centro da capital paulista, diz que recebe uma média de 15 a 20 casos de desaparecimentos por dia. Ele afirma que a maioria das pessoas é encontrada desorientada na rua, principalmente idosos, pessoas com problemas psicológicos e adolescentes que saem sem avisar aos pais. “Um caso de desaparecimento não é encerrado até que a pessoa seja encontrada, viva ou morta”, disse.

Números do estado de São Paulo, enviados com exclusividade ao R7 Estúdio, mostram que, entre janeiro e maio, foram registradas 7.278 denúncias de desaparecimentos. Dessas, 6.883 pessoas foram localizadas, vivas ou mortas. Atualmente, em todo o estado, 395 pessoas seguem desaparecidas no decorrer dos primeiros cinco meses do ano. Ferreira explicou ainda que as investigações são conduzidas pela delegacia de desaparecidos, mas, caso seja constatada a morte, a ocorrência vai para a delegacia especializada em homicídios, que investiga a motivação do crime.

O delegado Ferreira comentou ainda a sensação de desamparo e de falta de empenho das autoridades relatada pelos familiares. “A delegacia abre todos os dias, os familiares chegam até a gente, perguntam como está o andamento e damos o retorno. Tratamos caso a caso com sensibilidade porque pode ser desde um adolescente que saiu e não avisou aos pais ou uma pessoa que sumiu e pode ser que nunca mais seja localizada. Essa investigação não cessa, estamos sempre em diligências”, afirmou.

Familiares de desaparecidos relatam falta de empenho e de acolhimento de autoridades (Edu Garcia/R7 - 10.07.2022)
Familiares de desaparecidos relatam falta de empenho e de acolhimento de autoridades Edu Garcia/R7 - 10.07.2022

Maria José Barreto Braga, entretanto, diz que perdeu a conta da quantidade de vezes que pediu ajuda da polícia e não recebeu nenhum tipo de retorno. O filho dela, Felipe Barreto Braga, desapareceu em abril de 2014, aos 23 anos, próximo à Universidade Presbiteriana Mackenzie, na Consolação, no centro da capital paulista. “Meu filho, já desaparecido, ainda usava as redes sociais, eu pedi para a polícia investigar e nada foi feito. O irmão dele até tentou entrar no perfil para falar com o último colega com quem o Felipe tinha conversado, mas depois disso ele nunca mais apareceu, nem nas redes nem fisicamente”, disse Maria José.

A mãe de Felipe lembrou da conhecida frase “a esperança é a última que morre”, que para o grupo de mães faz tanto sentido. Junto das outras mães, ela soube de diversas ocorrências resolvidas e, por isso, também acredita que possa encontrar o filho. “Enquanto eu não enterrar o meu filho, para mim, ele está vivo”, concluiu.

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Arte R7
Falta de empenho das autoridades

Nas redes sociais, muitas pessoas compararam o empenho nas buscas pelo jornalista britânico Dom Phillips e pelo indigenista brasileiro Bruno Pereira, cujos corpos foram encontrados no oeste do Amazonas, à atenção dada por parte das autoridades à elucidação de casos com menos repercussão de milhares de famílias brasileiras que sofrem a angústia de ter parentes desaparecidos há anos.

Para o diretor do canal Desaparecidos, Anderson Jesus, as 200 famílias com quem ele trabalhou que enfrentam o problema relatam a mesma sensação: o desamparo. Segundo ele, a responsabilidade perpassa todas as esferas de governo. “A estrutura policial, para casos de investigações mais específicas, é muito antiquada e defasada. São soluções que precisam vir de cima. Mas os políticos não veem essa situação como algo que dá voto, por isso não está na lista de prioridade deles”, afirmou.

A comunicação está engatinhando para tentar padronizar as informações, por isso que a gente precisa de uma política nacional que lute por essas famílias que têm sofrido tanto

Simone Jesus, socióloga e policial civil

Por meio de viagens, conversas, gravações e inquéritos analisados, Anderson observa que integrar a comunicação entre as delegacias de todo o país seria uma das formas de reduzir o número de desaparecimentos. A socióloga Simone Jesus também acredita que o acesso e o compartilhamento de dados entre as polícias poderiam contribuir para a localização de pessoas. “Aqui [em Goiás] estão tentando padronizar essa comunicação em todo o estado, mas tem aspectos insanos nas investigações, como o fato de mais de 90% das pessoas registradas como desaparecidas não terem a informação sobre a cor. Isso é supernecessário”, disse.

Além disso, a socióloga ressaltou a importância de classificar a ocorrência quando a pessoa é encontrada – viva ou morta. Outra coisa que poderia ser modificada no trabalho da polícia, segundo ela, é identificar o máximo de pessoas mortas consideradas indigentes para descobrir se elas não constavam como desaparecidas. “A comunicação do restante do país está engatinhando para tentar padronizar as informações, por isso que a gente precisa de uma política nacional que lute por essas famílias que têm sofrido tanto", afirma. "Vejo cada caso e tento me colocar no lugar da pessoa, a angústia é enorme. Parece que a vida continua, mas só Deus sabe como cada uma está por dentro."

Reportagem: Isabelle Amaral
Fotografia: Edu Garcia
Arte: Matheus Mercadante Vigliar
Edição: Fabíola Perez