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Eugenio Goussinsky, do R7

Jogar bola ainda é a melhor forma de expressão para milhões de garotos espalhados pelas cidades brasileiras. É um funk universal, um samba que cria um mundo imaginário entre dribles leves, jogadas pegadas, brincadeiras e rusgas, por ruas, praias e campinhos, fazendo a tarde enlameada passar em um instante.

Até a mãe chamá-los para jantar e, muitas vezes, reclamar de uma falta: a da lição de casa. Na grande maioria dos casos o futebol, além de diversão, é o caminho para o sustento e a riqueza, em um País com grandes carências sociais.

Neste universo, o cantor carioca Jorge Vercillo, 51 anos, pode ser considerado uma exceção. Ele quase se tornou jogador do Flamengo, após um período atuando nas categorias de base do clube. Mas de forma até repentina, se deparou com uma outra opção, totalmente diferente: a música. 

Jorge Vercillo jogou no infantil do Flamengo (Divulgação/ Site oficial)
Jorge Vercillo jogou no infantil do Flamengo Divulgação/ Site oficial

“Eu era fanático por futebol, como milhões de garotos que sonhavam em ser jogador. Ainda mais torcendo para aquele Flamengo de Júnior, Zico, Adílio, Andrade, Leandro, Cláudio Adão, Tita... aquele time genial que chegou a ganhar o Mundial. Eu chegava na praia do Leme, onde minha mãe morava, onde sou nascido e criado, e ia jogar bola. Comecei a jogar no Time do Areia Futebol Clube, depois fui fazer teste para as escolinhas”, contou ao R7 Estúdio.

Do futebol de areia para o de campo, a passagem foi natural. Mas a continuidade não, ele conta. Após fazer teste para jogar no Infantil do Flamengo, foi colocado pela tia para fazer aulas de violão. O irmão dele, que era mais velho, ouvia James Taylor, Stevie Wonder, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Milton Nascimento, George Benson, Michael Jackson, Djavan, Chico Buarque e Elis Regina. Entre outros.

“Fui percebendo que a música foi ganhando espaço e notei também que, quando fui fazer o teste, tinha muitos garotos bons jogando. Porque eu me destacava no futebol de praia, mas não me destacava tanto no campo, lá no teste do Flamengo. E aí eu voltava lá, desempenhava melhor, mas comecei a me apaixonar pela música. E a estudar violão, tocar na noite, acordar tarde. Então, o futebol foi ficando de lado. E eu acho que eu seria um jogador de mediano a medíocre, eu sempre procurei ter uma autocrítica muito grande. Então, que bom que a música me levou", conta.

Vercillo desistiu do futebol para realizar o sonho de viver de música (Arquivo Pessoal)
Vercillo desistiu do futebol para realizar o sonho de viver de música Arquivo Pessoal

Mesmo envolvido com a música, não foi tão fácil desistir do sonho de ser jogador. “Na época, foi uma frustração ver que tinha pessoas melhores do que eu. Depois, fiquei sabendo que vários jogadores insistiram muitas vezes naquela peneira dos times de futebol. A gente viu que o Cafu fez 11 testes para ser jogador de futebol. Mas eu já estava tão envolvido com a música que levou o meu destino. A música apareceu no meu caminho de uma forma definitiva e o futebol me acompanha até hoje. Como me acompanha o esporte, uma vida saudável; eu tento arrumar tempo para correr, para fazer ginástica. Jogar é uma higiene mental para mim”, diz.

O futebol permanece na vida de Jorge Vercillo, como uma melodia
Rotina das peneiras

O sonho de se tornar jogador vira realidade para poucos. Ainda mais hoje, quando a fila das peneiras nas periferias pode chegar a meses de espera. Quando os candidatos conseguem passar, ainda assim as barreiras são enormes.

Há aqueles que entram diretamente nas categorias de base, indicados por empresários ou amigos de diretores. Tal situação tem se tornado cada vez mais constante. Mas as dificuldades da carreira são grandes, independentemente da forma com a qual o jovem ingressa no clube.

Assim, boa parte deles desiste do sonho com uma dose de frustração. E então vem o grande aprendizado. Fazer daquele mundo imaginário, em que ele se sentia um rei, uma ponte a atravessar rumo a novas possibilidades. Vercillo percorreu esse caminho naturalmente.

Apesar das dificuldades, o sonho de virar estrela do futebol permanece entre as crianças (Pixabay)
Apesar das dificuldades, o sonho de virar estrela do futebol permanece entre as crianças Pixabay

Nem sempre, porém, é fácil encontrar uma outra maneira de se sentir satisfeito consigo mesmo, com suas habilidades em dar dribles pela vida, independentemente do futebol e do sonho de fama e fortuna rápida.

O futebol seduz esses jovens por também se identificar com eles. Por ser uma forma de comunicação direta, espontânea, com um objetivo fixo (o gol), o esporte os desafia a criar infinitas alternativas para chegar até ele. Identifica-se com o improviso do brasileiro.

Esse jogo tem muito de brincadeira e, como um canto de sereia, faz muitas crianças terem a ilusão de transformá-lo em uma profissão. E quando eles misturam o exemplo de sucesso de uma parcela ínfima desses meninos ao seu próprio exemplo, podem se frustrar. Cada um, afinal, tem a sua história.

Um estudo publicado em 2011 reuniu os professores Hugo Paula Almeida da Rocha (então bolsista PIBIC/CNPq); Tiago Lisboa Bartholo (então doutorando do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro); Leonardo Bernardes Silva de Melo (Programa de Pós-Graduação em Educação Física da Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro) e Antonio Jorge Gonçalves Soares (da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro), para chegar à seguinte conclusão:

"A crescente movimentação no mercado do futebol aguça a perspectiva de jovens pretendentes a esta formação profissional, que veem neste esporte a possibilidade de um futuro promissor. Na visão dos jogadores das categorias de base e de seus familiares, o investimento precoce na profissionalização no futebol se faz necessário. Este esporte aparece como um modo de ascensão social e econômica, fomentando um planejamento familiar intencional."

Dados apresentados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em 2016, mostram que mais de 80% dos jogadores do futebol brasileiro ganham até R$ 1 mil por mês. Destes, 96,08% não recebem mais do que R$ 5 mil.

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Arte R7
De lateral a analista

Mahall Santos Prado, analista sênior de eventos hoje com 31 anos, se deparou aos poucos com tal realidade. Quando criança, passava as tardes no bairro Vila das Mercês, em São Paulo, grudado em uma bola.

"Quando eu era criança eu via o futebol como a maior alegria, nunca fui de jogar vídeo game, empinar pipa e fazer qualquer outra coisa que não fosse jogar futebol. Jogava em casa, na quadra, na terra, no estacionamento do banco do lado de onde eu morava – aliás, a melhor pelada que tinha onde eu nasci. O futebol é o sonho de qualquer menino, como foi o meu."

Aos 7 anos, ingressou no futsal do Clube Juventus, na Mooca. Ao mesmo tempo, jogava futebol de campo no tradicional Pequeninos do Jockey. Seus pais o apoiavam, mas insistiam que ele deveria ter várias alternativas de vida, para não depender apenas do futebol. Prado até entendia, mas no fundo, só pensava na bola.

"Tem uma fase em que você deve optar pelo futsal ou pelo campo, até pelo horário dos jogos e o cansaço dos pais (risos). Quando cresce, vem a escola e você também tem que escolher. Eu nunca deixei de estudar, pois o futebol era uma diversão."

Na vida de Mahall, o futebol foi uma prioridade até a adolescência (Arquivo Pessoal)
Na vida de Mahall, o futebol foi uma prioridade até a adolescência Arquivo Pessoal

Mahall foi crescendo e a realidade, tornando-se cada vez mais dura, apesar da paixão. "Meus pais viam a ideia do futebol como uma atividade extra. Aos 16 anos, tive que falar para eles que o futebol era a atividade principal. Faltava às aulas, pois os treinos passaram a acontecer em dois períodos e a escola teria que ficar para a noite. Depois dos 17, veio a faculdade e eu tinha que treinar no período da manhã e da tarde e ir para a faculdade à noite."

Ele já tinha feito o Infantil no Santo André. Mas quando marcou um gol pela Portuguesa, nos Juvenis, sentiu que poderia mesmo ser um lateral-direito profissional. Ainda passou, na categoria Juniores (sub-20) pelo Náutico (RR) e Ponte Preta. Já sonhava até em atuar fora do País.

"Um dia, voltei de Campinas decidido a sair do país para estudar e jogar bola. Em duas semanas tudo mudou, fui para Sorocaba fazer um teste no São Bento e acabei me profissionalizando. Caí na mão de um empresário que foi bom para viabilizar o clube, contrato e dar uma estrutura para poder trabalhar."

Depois, veio um outro lado. Terminado o primeiro campeonato, ele foi emprestado ao ASA de Arapiraca. Foi quando se sentiu isolado em um mundo estranho.

"Nesse momento percebi que o futebol era um negócio e, para você participar desse negócio, tinha que ter bala na agulha. Essa foi a grande decepção: chegar em um clube onde ninguém sabe quem é você, ter que se apresentar, jogar bola e ainda negociar hospedagem, alimentação... Meu empresário foi morar na Alemanha por causa de outro jogador e me deixou na mão, pois entendia que eu não dava o retorno financeiro que ele esperava."

Fim do sonho

Já com 21 anos, o que parecia um sonho ameaçava se tornar um pesadelo. Então, ele parou. "Percebi que era momento de parar quando eu já não conseguia mais andar com as minhas pernas, eu dependia do meu pai para me ajudar financeiramente, não estava jogando, passava mais tempo em casa do que em algum clube. Aí vi que o futebol tinha acabado para mim."

Wagner, o pai, deixou de lado a exigência pelos estudos. Mais pelo desejo ardente de não ver o filho decepcionado diante de um sonho que se desfazia. Por isso, arrumou um novo teste em Londrina (PR). Mahall foi. Mais por amor ao pai do que à sua antiga busca.

"Meu pai fez uma proposta para que eu fosse fazer avaliação no Londrina e eu disse: 'Pai, eu vou por você'. Mas eu sabia que aquilo que era uma diversão que tinha virado obrigação. Pesei o que eu sabia fazer e o que eu queria fazer: jogar futebol ou vencer em outro ramo. Optei por seguir a versão do homem vencedor e não largar o esporte. Percebi que tinha vida além do futebol quando fui trabalhar e o reconhecimento profissional chegou. E era além do que eu tive quando atleta."

A realização profissional pode acontecer também fora dos campos (Pixabay)
A realização profissional pode acontecer também fora dos campos Pixabay

Como analista sênior de uma empresa de gestão esportiva, ele sente até um certo alívio pelo fato de não ter ingressado em uma carreira que se desenhava cheia de ingratidão. E, outro ponto positivo, passou a ter fim de semana novamente.

Independentemente da fama ou do dinheiro que podem vir do futebol, Mahall entendeu que é possível se realizar em outras áreas.

"Eu sempre coloco a doutrina que tive no futebol na minha vida. E é isso: o homem vive dentro das quatro linhas. Se ele vai bem, a família vai aplaudir, os amigos vão aplaudir e a torcida vai gostar. Quando vai mal, recebe vaias, cornetada dos amigos, apoio, vaia da torcida.”

O futebol permanece na vida de Mahall, como uma metáfora
Tempo curto

Nascido em Mogi das Cruzes, mesma cidade de Neymar, o ex-jogador Jackson Ribeiro, de 31 anos, viveu a infância na Penha, zona leste paulistana, e largou a carreira aos 26 anos. Tendo atuado em uma série de clubes, inclusive nos Estados Unidos, ele concluiu que lhe faltava um preparo mais estruturado para enfrentar a realidade do profissionalismo. Ainda mais quando chegou à Europa, para um teste no Antalya, da Turquia, e não foi contratado.

"Quando vi de perto o futebol da Europa, as exigências e o que era aquilo, percebi que tinha perdido o timing, que eu não teria condições de jogar mais naquele nível. Percebi que estava apenas sobrevivendo com o futebol e falei para mim mesmo que teria possibilidade de me desenvolver em outros setores. Sabemos que, no futebol, o tempo do jogador é curto."

Jackson, que se tornou supervisor, técnico e gestor no futebol, acredita que a formação dos jogadores em um país carente como o Brasil é precária. Ele afirma que muitos meninos veem o Esporte como uma salvação financeira, mas é necessário um preparo adequado para encarar os desafios.

O futebol na periferia: entre a várzea e o sonho (Agência Estado)
O futebol na periferia: entre a várzea e o sonho Agência Estado
A dificuldade que a população tem na Educação se reflete no futebol
Jackson Ribeiro

"Vejo que o futebol é uma bolha, sempre esteve alienado, numa ilha, em relação às coisas que estão acontecendo no mundo e no nosso País. Não sei se as pessoas percebem isso, mas toda a dificuldade que a população tem na Educação, as dificuldades sociais, se refletem no futebol. Muitas famílias estão mal orientadas nesse sentido e isso nos faz perder jogadores com muita condição técnica e física. Acabam ficando no meio do caminho porque não houve a orientação necessária."

E quanto à realização como jogador?

"Não, não me sinto realizado porque não cheguei próximo de onde queria chegar. Realizado significa conquistar o que se almejava. Mas estou bem-resolvido quanto a isso. Sou grato ao futebol. Ele foi fundamental na minha infância, porque comecei, desde cedo, a entender a importância do horário, da disciplina, do senso de correção, de fazer as coisas em grupo, de perder, ganhar, saber buscar o meu espaço."

O futebol permanece na vida de Jackson, como um aprendizado
O ensinamento de Cléber Santana

"Volta correndo, segue girando. Vai!" Com essas frases, o professor de Educação Física do Colégio Palmares, Raphael Aquino, de 25 anos, orienta seus alunos de futebol. Ele ensina a criança a entender a importância da postura, desenvolver o reflexo, testar a potência e a agilidade, características vitais para lidar com a rotina e o autoconhecimento. Sua carreira de professor começou com o fim do sonho de virar jogador profissional. Nascido na Vila Brasilândia, desde cedo batia bola e fazer gols era o que mais o fascinava.

“A profissão de jogador é o sonho de todo garoto, tanto pela paixão pelo esporte como pela possibilidade de ascensão social. Se o jovem vier de um contexto social simples, essa pode ser a sua única chance de não se envolver com coisas erradas”.

Raphael chegou a treinar, nas categorias de base, em grandes equipes como o São Paulo. E, se não se tornou profissional, pelo menos acumulou um conhecimento suficiente para lhe dizer que não é só a ambição que prevalece neste ambiente. Como exemplo, citou um episódio com Cléber Santana, volante que atuava no São Paulo e morreu em 2016, no acidente com a delegação da Chapecoense.

Raphael deixou o futebol de lado por falta de boas oportunidades nos clubes (Arquivo Pessoal)
Raphael deixou o futebol de lado por falta de boas oportunidades nos clubes Arquivo Pessoal

“O futebol me trouxe momentos maravilhosos, joguei ao lado de jogadores renomados, completando o elenco profissional, como Miranda, Rogério Ceni e Dagoberto. Um dia, o Cléber Santana brincou comigo por causa da chuteira velha que eu estava usando. Eu fiquei bravo. Mas depois ele perguntou o número que eu calçava e pediu para que o roupeiro trouxesse todo o carregamento para eu escolher duas. E me explicou a importância de eu cuidar delas. Nunca me esqueci deste momento, da atenção que ele deu a um jovem desconhecido”.

Ele parou de jogar aos 17 anos, por falta de oportunidades nos clubes. E a família necessitava que ele trabalhasse, para ajudar em casa. Buscou, então, outro caminho, se formando professor.

Agora, Raphael procura passar o conceito de generosidade, aprendido com Cléber Santana, em suas aulas. Divide seu conhecimento com cada uma das crianças, com a concentração de um atacante no momento do pênalti. E não os desencoraja a tentar a carreira de jogador. Mas com os pés no chão.

“Primeiramente, digo que é importante ter um sonho e ir em busca dele. A dedicação pode te levar a lugares distantes e à realização de sonhos que pareciam impossíveis. Mas que tenha sempre um segundo plano que também te deixe feliz. Afinal, há muitas formas de ser feliz”.

O futebol permanece na vida de Raphael, como um ensinamento
O futebol  está longe de ser o único caminho rumo ao sucesso (Pixabay)
O futebol está longe de ser o único caminho rumo ao sucesso Pixabay

Reportagem: Eugênio Goussinsky
Colaboração: Cleide Oliveira
Edição: Tatiana Chiari
Arte: Lucas Martinez e Sabrina Cessarovice
Produção: Caroline Soares de Moraes
Videografismo: Marisa Eiko Kinoshita