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Márcio Neves, do R7

Barão de Cocais fica encrustada em um vale da Serra do Gandarela, um trecho preservado de Mata Atlântica, a pouco mais de uma hora e meia de carro da capital de Minas Gerais, Belo Horizonte. É uma típica cidade mineira, com economia que gira em torno da mineração e do turismo histórico. Um lugar de tons avermelhados, a cor do minério de ferro extraído nas várias minas da região.

Desde 8 de fevereiro, a vida dos 32 mil moradores da cidade mudou. A barragem na mina de Gongo Soco, operada pela Vale, foi colocada em alerta máximo, com risco de rompimento, após uma vistoria da ANM (Agência Nacional de Mineração). Isso aconteceu poucos dias depois da tragédia da barragem da mina do Córrego do Feijão, também da Vale, na também mineira Brumadinho.

Mas cerca de 435 pessoas que viviam no distrito de Socorro, distante 17 km do centro de Barão de Cocais, foram ainda mais impactadas com a vistoria e tiveram suas vidas paralisadas. Foram obrigadas a deixar suas casas às pressas, apenas com a roupa do corpo, na madrugada de 8 de fevereiro, após as sirenes de alerta serem tocadas na comunidade.

O distrito de Socorro é um daqueles vilarejos que parecem ter saído de uma cena de novela ou de um filme de época. Poucas casas em uma rua de blocos hexagonais, cercadas por algumas chácaras, um campinho de futebol e uma igreja, construída há 282 anos, a mais antiga em estilo rococó do estado de Minas Gerais.

Barão de Cocais - Drone - MG (Márcio Neves/R7)
Barão de Cocais - Drone - MG Márcio Neves/R7
A sirene

No dia em que a sirene da Vale tocou, o pedreiro Paulo Matias logo reconheceu o alerta e acordou seus 7 filhos e a esposa, Aparecida de Paula, que protestou.

— Isso aí é a geladeira do meu pai, volte a dormir! — reclamou Aparecida para Paulo.

— Não é não! É a barragem, eu ouvi isso na reunião (feita pela Vale com moradores dias antes). Vamos correr! — respondeu ele.

E assim fizeram, juntando os filhos, com a roupa do corpo, sem documentos, nenhum pertence. Foram para uma área mais alta do Distrito de Socorro, onde logo se juntaram a outros moradores.

Foi ali que a vida da família de Paulo e das cerca de 200 famílias do pacato vilarejo foram paralisadas. Tiveram que deixar suas casas e o local onde muitos, como Aparecida, viviam desde quando nasceram. Paulo chegou há 15 anos, quando se casou com ela e deixou o distrito de André do Mato Dentro, não muito distante dali.

A evacuação foi determinada porque o distrito fica no que os técnicos da Defesa Civil e da Vale chamam de ZAS (Zona de Auto Salvamento). Na prática, um nome técnico para "salve-se quem puder", pois está numa área que, em caso de rompimento da barragem, não há tempo hábil para que equipes de resgate possam socorrer alguém.

Segundo a Defesa Civil de Minas Gerais, o distrito de Socorro seria atingido pela lama, caso a barragem sul superior da mina de Gongo Soco se rompesse, em menos de 6 minutos.

Zona de risco ou salve-se quem puder

Além da evacuação, o vilarejo foi fechado pelas autoridades mineiras e a entrada proibida, pois o local foi considerado de alto risco. Hoje ninguém entra ali. Do dia para a noite, a vila pacata e tranquila, com a maioria de moradores idosos, alguns com mais de 90 anos, virou uma vila fantasma.

"Mas tudo isto é muito complicado, a história dessas pessoas está ali. Aquelas pessoas só querem tranquilidade, viverem com seu pomar, com as galinhas no quintal, com seu cantinho, mas este direito foi tirado delas de uma forma violenta", lamenta Décio Santos, prefeito de Barão de Cocais, que se diz de mãos atadas diante do risco oferecido pela barragem.

Quem tentou entrar para buscar algum pertence ou simplesmente ver como estava sua casa após dias trancada foi preso, como aconteceu com o aposentado Francisco Xavier.

"Falaram que as casas estavam sendo saqueadas, fui lá verificar e fui preso. Tive que dar esclarecimentos para a polícia por qual motivo eu entrei numa casa que é minha, que pago impostos e foi o lugar que eu investi as economias de uma vida e e escolhi para morrer", diz Francisco emocionado.

Além de Francisco, ao menos outras 19 pessoas, todos moradores do distrito, foram presas por tentarem voltar às suas casas para resgatarem pertences e checar se nada foi levado.  

A Polícia Militar de Minas Gerais justifica as prisões afirmando que "por se tratar de uma área interditada pela Defesa Civil, conforme Decreto Municipal 83, de 17/04/2019, é proibido o acesso de pessoas naquela comunidade”.

Dias difíceis

Após a evacuação, Paulo e todos os retirados do distrito de Socorro foram levados para hotéis. Gente acostumada a caminhar por sítios, cuidar de animais, da horta, andar a cavalo e ir até a "cidade" buscar itens que precisavam foram, muitos pela primeira vez, para quartos de hotéis. 

Segundo a Vale, priorizando idosos, famílias com crianças e mulheres, algumas famílias foram sendo acomodadas em casas alugadas pela companhia.

Passados quatro meses, já acomodado com sua família de 9 pessoas em uma casa de cinco cômodos grandes próxima do centro de Barão de Cocais, Paulo Matias chora ao lembrar das comodidades que só um mineiro nascido e criado na roça sente falta. 

Mais do que reclamar da queda nos rendimentos da família, um problema sofrido por todos retirados do vilarejo com quem o R7 conversou, ele se queixa da saudade de pequenos prazeres de sua casa no distrito do Socorro.

"Lá eu plantava horta, tinha galinha e comia ovo caipira a hora 'que queria'. Queria comer um frango, comia a hora 'que queria'. Aqui nada", reclama Paulo.

Além disto, ele sente falta dos amigos e da convivência com os vizinhos do pacato distrito de Socorro, que agora foram espalhados por diversos bairros e distritos de Barão de Cocais.

Uma cidade em pânico
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Márcio Neves/R7

Com o alerta que retirou os moradores do Distrito de Socorro, logo os de Barão de Cocais começaram a ver a rotina da cidade mudar também. Bombeiros e técnicos da Defesa Civil começaram a circular pela cidade, o que gerou um clima de apreensão.

Logo veio a confirmação. Parte da cidade estava em uma área que pode ser atingida pela lama ou pelo aumento do nível do rio que corta a cidade, caso a barragem da mina do Gongo Soco venha a romper.Em 25 de março, a Defesa Civil fez o primeiro simulado de evacuação. Entre os bairros que estão na zona de risco, na chamada mancha de alagamento, está o centro da cidade.

As ruas dessa área, além do já característico tom vermelho minério que faz parte da paisagem, trazem agora uma pintura laranja e placas de sinalização de rotas de fuga. Até a principal rua de comércio da cidade foi apontada como área de risco. 

"É um clima de apreensão constante, acordamos e dormimos em alerta com essa história da barragem", diz Rogério de Castro, 28, que vive em uma área de risco próxima ao centro de Barão de Cocais.

A barragem e o talude

Esse clima de apreensão cresceu ainda mais nos primeiros dias de maio, quando além do risco da barragem, um talude, estrutura feita na encosta das paredes da cava, o "buraco" da mina de Gongo Soco, ameaçava desabar e foi levantada a suspeita de que, se isso ocorresse, a barragem poderia ser afetada e ruir.

Diariamente a Defesa Civil e a Vale passaram a monitorar tanto a barragem como este talude, mas ambos negam que houvesse qualquer estudo que indicasse que o talude ofereceria de fato risco para a barragem. Mas apenas este dado novo, a possibilidade, desencadeou uma onda de medo em Barão de Cocais.

"As pessoas têm medo de sair na rua até para comprar pão ou fazer coisas rotineiras, pois têm medo de não estar em casa ou perto da família se algo acontecer", diz a empresária Maria Flávia, dona da padaria ao lado do hotel.

O auge dessa tensão aconteceu com o fechamento dos bancos e da agência dos Correios da cidade, baseado em uma norma que permitiria estes locais de serem fechados em caso de calamidade pública. O que não foi decretado ainda. 

Com os bancos fechados, a chegada de dezenas de profissionais da imprensa, o anúncio diário da movimentação do tal talude e a divulgação de cálculos que indicariam a queda do paredão de terra na mina, o clima ficou ainda mais pesado na cidade. "A gente precisa pagar conta, precisa viver. Não dá para ficar a mercê de uma coisa que foi prevista quatro meses atrás", reclamou a padeira Carla dos Santos.

Dias depois, a própria Defesa Civil de Minas Gerais veio a público pedir que esses estabelecimentos reabram, esclarecendo que não havia indícios técnicos claros sobre a relação entre a queda do talude e o rompimento da barragem e que, mesmo se isto acontecesse de fato, o local onde estes estabelecimentos estão teriam mais de uma hora para serem evacuados.

Nesta segunda (27), bancos e correios reabriram na cidade e a história do talude, tão alardeada em semanas anteriores, caiu por terra. Mas a barragem continua sob risco, Barão de Cocais em alerta e os moradores de Socorro sem poder voltar para casa.

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Márcio Neves/R7

No vídeo abaixo do R7 Estúdio é possível identificar os elementos que existem nesta mina e estão diretamente relacionados aos riscos que Barão de Cocais enfrenta, segundo os órgãos de controle de mineradoras, defesa civil e engenheiros consultados pela reportagem.

O primeiro deles é a barragem Sul Superior, que armazena rejeitos do minério de ferro que era extraído na mina de Gongo Soco até 2016. São 6 bilhões de litros de rejeitos, o equivalente a 2.500 piscinas olímpicas.

Após o acidente que deixou 245 de mortos em Brumadinho, a ANM decidiu fazer um pente fino na segurança de barragens que utilizavam o mesmo método de construção da que rompeu em 25 de janeiro, entre elas a barragem Sul Superior da Mina de Gongo Soco. Foi o início do pesadelo. 

No dia 7 de fevereiro, a Vale informou à ANM que o Fator de Segurança, um indicador matemático baseado em medições feitas na estrutura da barragem, estava abaixo das normas.

De acordo com as regras, quando isto acontece é declarada emergência na barragem, o que exigiu tocar as sirenes e realizar a evacuação das áreas mais próximas da barragem, chamadas de ZAS (Zonas de Alto Salvamento). Também é preciso iniciar a série de treinamentos de evacuação e monitoramento da estabilidade da barragem Sul Superior.

Tudo isto está previsto em protocolos de segurança e são considerados normais, para que, em uma situação de emergência, o número de vítimas e danos sejam os menores possíveis.

Preparados para o pior

O talude passou a ser monitorado pelos técnicos que trabalham com a situação em Barão de Cocais, pois há uma suspeita de que a queda desse talude, em um cenário hipotético, possa provocar uma onda de choque que afete a estabilidade da barragem Sul Superior.  

Tanto a Vale, como a Defesa Civil e engenheiros ouvidos pelo R7 afirmaram que não há estudos que possam indicar que a queda do talude, ainda mais amortecido pela água da cava da mina, possa oferecer uma onda de impacto significante para provocar o rompimento da barragem.

"O plano de emergência da barragem é o elemento fundamental para que se possa ter detalhes técnicos e dizer se qualquer onda sísmica, seja da queda de um talude ou da movimentação de um caminhão e até mesmo uma explosão podem significar algum risco para a barragem. São coisas bastante distintas, o talude e a barragem", afirmou Rafaela Baldi, especialista em barragens.

Arte mostra extensão da tragédia em Brumadinho, com a previsão da Vale em Barão de Cocais
Arte mostra extensão da tragédia em Brumadinho, com a previsão da Vale em Barão de Cocais
O futuro é incerto

Com o risco ainda iminente, a Vale afirma que toma medidas para tentar minimizar riscos oferecidos pela barragem. O talude, segundo notas divulgadas pela empresa, já foi descartado quanto ao risco.

A empresa planeja fazer o descomissionamento da barragem, ou seja, esvazia-la. Em paralelo, constrói uma vala e um paredão para tentar conter parte dos rejeitos e desviar seu curso para que não atinja em cheio o distrito de Socorro e reduza a área de alagamento, caso isso ocorra. 

As vidas das 200 famílias seguem em suspenso. Quando a rotina poderá ser retomada? O R7 solicitou uma entrevista à empresa para esclarecer estas dúvidas, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem especial.

Uma nota no site da empresa afirma que ela presta auxílio às famílias com o aluguel de casas e o pagamento de uma ajuda de custo de acordo com o tamanho de cada núcleo familiar.

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Márcio Neves/R7

Paulo, Xavier e outros moradores retirados do vilarejo afirmam que a empresa diz que eles poderiam voltar para o local em 2 a 3 anos, depois que as obras de esvaziamento da barragem forem concluídas. 

"Eles falam que vamos poder voltar, mas não sabem dizer ao certo quando. E quando voltarmos, eles vão pagar para limpar e deixar tudo como era quando vivíamos lá?", questiona Franscisco Xavier. "O mato já está alto, os ratos estão tomando conta e nossas coisas estão estragando".

Paulo conta que não dorme, come mal e vive preocupado. Tem dívidas com a queda do rendimento da família e não sabe se um dia vai poder voltar para seu cantinho no Distrito de Socorro. Não tem certeza se a vida será como antes.

"Meu sonho é voltar para lá. Foi lá onde nasci e eu amo aquele lugar", diz Aparecida, esposa de Paulo, segurando o caçula de seus filhos no colo. "A vontade que dá é pegar tudo e voltar pra lá", diz Paulo. 

Entre a vontade e a realidade, o vazio. A pausa. A dúvida. Vidas paradas à espera de um desastre ou de um milagre. Para eles, apenas voltar à velha realidade. 

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Reportagem e vídeo: Márcio Neves
Edição: Tatiana Chiari 
Desenho: Matheus Vigliar
Arte: Sabrina Cessarovice
Edição vídeo: Edimar Sabatine e Caíque Ramiro
Videografismo: Marisa Kinoshita