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Kaique Dalapola, do R7

Se fossem do extremo sul de São Paulo, Guilherme Taucci e Luiz Henrique de Castro — autores do massacre de Suzano — não teriam dificuldade para entrar na Escola Estadual Levi Carneiro, no Jardim Mirna, região do Grajaú.

A escola, que tem ao todo 1.177 alunos conforme o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), foi escolhida pela reportagem para ter um infiltrado como aluno durante uma semana. O objetivo era conhecer a rotina numa escola pública da periferia da capital paulista.

A definição da sala onde eu passaria a semana aconteceu em menos de dois minutos. Escolhi a turma do 1º TE (Termo E), que era a que tinha mais alunos e, portanto, menor chance de me descobrirem como infiltrado e mais histórias a serem contadas.

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Ainda sem saber se seria difícil entrar (e permanecer) em uma escola, fiquei próximo às pessoas que são as primeiras a ir para o pátio, assim que o primeiro portão abre, às 18h45. Passei despercebido pela coordenadora que destranca o portão. Cruzei com ela ao entrar.

O secretário-geral de Educação do Estado, Haroldo Corrêa Rocha, disse que não era para eu ter encontrado essa facilidade para entrar no ambiente escolar. Em entrevista ao R7, ele afirmou que o Governo vai "adotar uma série de procedimentos para que os pais tenham tranquilidade no momento em que os filhos estão na escola".

Dentro da escola, encontrei mais portões e grades.

Novamente fiquei perto do portão — este, que dá acesso às salas de aula. Assim que bateu o sinal de início das aulas noturnas, às 19h, está lá a coordenadora novamente, liberando o acesso dos alunos. Todos seguem para o corredor com 14 salas de aula.

Passei olhando para as portas abertas do lado direito, que são as turmas do EJA (Educação de Jovens e Adultos) e entrei na sala cinco, que passaria a chamar de “minha”.

Em um primeiro momento, já havia ficado claro o quanto a sala era heterogênea. Homens e mulheres, pretos, brancos e pardos. O aluno mais novo com 18 anos, o mais velho com mais de 70.

Como ninguém soube que eu contaria suas histórias, os nomes aqui serão fictícios.

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Nordeste, presente

Nas conversas da turma, quase sempre em tom alto puxado pela baiana Sandra, 40 anos, os sotaques mostravam que o Nordeste estava bem presente ali. Principalmente entre as mulheres de meia-idade sentadas no meio da sala (turma do meião), que dividiam falas com os mais jovens sentados ao fundo (turma do fundão).

A informação dada pela coordenadora pouco depois do início da primeira aula de segunda-feira norteou muitas contestações e brincadeiras da turma durante a semana toda: “Ninguém pode ir ao banheiro durante o intervalo das turmas regulares”, disse a funcionária.

“E se tiver muito apertada e com dor de barriga?”, questionou Geovana, 25 anos, no fundo da sala. Não teve resposta. “Já que não podemos sair no intervalo deles, têm que deixar a gente sair em duas, porque aquele banheiro é mal-assombrado", brincou, em seguida, Laura, 28.

A brincadeira ganhava contornos de seriedade toda vez que alguma mulher pedia para ir ao banheiro. Dificilmente saíam sozinhas. Ora com medo do sobrenatural, ora temendo o real. "Essa escola também não ajuda, olha esse corredor... Parece o Carandiru", disse Laura.

O ar sombrio, no entanto, está longe de ser a maior bairreira para os estudantes que devem terminar o ensino médio no final do ano que vem.

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Com o cansaço, item básico entre os alunos, os assuntos de fora da escola acabam animando mais os estudantes. O ponto alto na interação entre os alunos na segunda-feira aconteceu a partir de um questionamento: “O que vocês acham que a Maria da Paz vai fazer quando souber da traição?”

Começaram a conversar e a especular sobre uma novela. Não tinha nada a ver com a aula, mas foi um dos momentos mais participativos da semana.

Meu nome não está aí

Durante cinco dias de aula, tive grandes mudanças de sensações. Na segunda-feira, sem conhecer a estrutura da escola, predominava o temor de ser descoberto e expulso. Na sexta-feira já estava à vontade, envolvido em grupos de trabalhos e fazendo as típicas brincadeiras da época de escola.

Os riscos de o disfarce cair só ficavam iminentes durante as chamadas. Mesmo assim, no primeiro dia, passei por todas as aulas com tranquilidade, sem nenhum professor perguntar meu nome. Alguns perguntavam, após chamar os nomes da lista, se alguém não havia sido chamado, mas o silêncio era a resposta para a aula ter continuidade.

Na terça-feira, no entanto, a professora Maria não chamou os nomes que estavam na lista de chamada, mas passou perguntando o nome de cada um. “Aqui na chamada tem 50 alunos, mas boa parte não vem, então vou passar pegando o nome de vocês”, justificou.

Quando chegou a minha vez, o diálogo foi o seguinte:

— Seu nome?

— Kaique.

— Souza?

— Não. Silva. Mas meu nome ainda não está aí, estou com algumas pendências.

— A diretoria já está sabendo?

— Sim.

— Então tá bom.

A professora seguiu, anotou o nome dos quase 30 alunos presentes na aula (uns 10 a mais do que no dia anterior). “Geralmente começamos com a sala cheia mesmo e terminamos sem ninguém”, disse.

Isso foi como se eu tivesse acabado de me matricular. Ficou claro que dificilmente seria impedido de continuar na sala ou desconfiariam que meu objetivo era apenas reportar o que estava acontecendo.

‘Vamos fazer juntos, cachorro?’
Trabalho de física para fazer em trio (Kaique Dalapola/R7)
Trabalho de física para fazer em trio Kaique Dalapola/R7

No terceiro dia, meu rosto já era conhecido. Eu já fazia parte da turma. Uma pequena apresentação de um trabalho individual que havia feito na segunda-feira parece que me credenciou como um aluno que estava mesmo afim de estudar.

Na quarta-feira, os primeiros trabalhos que eu precisaria fazer era com outros alunos. Primeiro, um em dupla, para entregar na hora. Fiquei em uma situação delicada: e agora, como não interferir na situação de um estudante?

Continuei quieto, pensando como sairia dessa. Mas fui forçado a tomar uma decisão imediata. “Vamos fazer juntos, cachorro?”, disse o alagoano Lucas, 19 anos, que estava sentado na fileira ao meu lado. “Vamos”, respondi.

Combinamos que eu copiaria as perguntas que o professor estava passando na lousa e ele já ia tentando responder. Quando terminei de copiar, ele já estava com todas respostas. Imagino que fomos bem nesta.

Pouco depois de todos entregarem, uma nova atividade. Dessa vez, em trio e para fazer em casa. Teria que ser entregue na semana seguinte — e eu já sabia que não estaria mais por lá.

Fiquei em silêncio, comecei a mexer no meu material, em uma tentativa de não entrar em grupo nenhum. Não deu certo. De novo o Lucas olhou pra mim e me chamou para fazer com ele. Pensei por alguns segundos e topei.

A minha anuência em fazer o trabalho com o grupo praticamente me obrigou a abrir o jogo com eles na sexta-feira. No último dia que eu ficaria com a turma, encostei nos meus "colegas de grupo" e disse que era para colocar outro no meu lugar porque eu era repórter.

'Um anima o outro'

Se eu recusasse, em algum momento, fazer parte do grupo que estava me chamando, destoaria muito do perfil da sala. Pelo menos o que estava sendo até aquele momento. Todos juntos, solidários e focados em seguir firmes até o fim do ensino médio.

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A solidariedade da turma me atingiu diretamente na quarta-feira. Uma professora passou uma atividade para ser feita em uma folha separada, para entregar. O meu caderno era menor do que dos demais alunos, então pedi uma folha para um colega de sala, o Tiago, de 20 anos. Prontamente ele arrancou e me deu.

Mas não foi só isso. Luiza, 19 anos, que estava ao lado dele abriu a mochila, tirou um caderno de 10 matérias e me entregou. “Pega para você, é melhor do que esse seu”. Segurando o presente, eu disse que não precisava. Mas ela falou que tinha outros e era para eu ficar. Agradeci.

Retribui a gentileza no dia seguinte, depois de uma situação inusitada entre Luiza e Tiago. Na segunda aula, o rapaz foi ao banheiro e deixou seu celular em cima da carteira. Malandramente, a menina pegou o aparelho e ligou a função de compartilhar internet.

“Você é esperta, né? Roteou minha internet. Vou desligar, senão fico sem”, disse Tiago em tom de brincadeira, cerca de 15 minutos depois, quando percebeu que a menina estava usando sua internet sem ele saber. Ela sorriu, mas lamentou ter ficado sem poder usar as redes sociais. Então, compartilhei a minha.

'Essa conta é treta'

Com exceção de João, 71 anos, e alguns outros poucos alunos, a sala sentiu muita dificuldade nas aulas de matemática, que incluía contas de dividir. O professor se dedicava a esclarecer as dúvidas, mas “é muito difícil entrar isso na cabeça”, conforme relatou Francisca, 60 anos.

Matemática é a matéria de que João mais gosta. “Acho que junto com inglês”, disse a um professor. O mais velho da sala era sempre o primeiro a terminar as contas e gostava de se vangloriar por isso.

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Caio, 18 anos, não sentia que era tão fácil assim. Antes mesmo da aula de matemática, durante um intervalo, ele demonstrou que não estava tão firme assim na escola.

Durante as aulas cheias de números e cálculos, a dificuldade era ainda maior. “Não consigo entender nada nessa parte que tem que descer o do lado e tirar a sobra”, disse com um lápis em uma mão e a borracha na outra.

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“Me mostra aí como você faz”, pediu para mim. Fizemos uma juntos. Ele começou a entender.

"É só fazer isso? Ver qual número que, ‘vezes’ [multiplicado por] esse de cima, chega mais perto e já era?"

Respondi que era isso mesmo. 

"Essa conta é treta, mas acho que aprendi. Levei 18 anos para aprender isso, mas agora ganhei meu dia, minha semana, meu ano. Dá até vontade de continuar vindo para escola", disse animado, sorrindo, após acertar uma das contas que o professor passou.

Apologia ou crime?
Pichação do PCC no banheiro da escola (Kaique Dalapola/R7)
Pichação do PCC no banheiro da escola Kaique Dalapola/R7

Diferentemente do que é noticiado esporadicamente, as cenas de violência e ilegalidades não são tão recorrentes assim no ambiente escolar. Pelo contrário, muitos jovens vão para escola justamente para fugir do crime.

As marcas no destruído banheiro masculino indicam que existe um domínio da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) por ali. O que não dá para saber é se, de fato, atuam dentro da escola ou se dominam apenas a mente dos jovens que querem ostentar o nome da organização.

Das três cabines do banheiro masculino — apenas uma ainda tem a porta — e centenas de pichações nas paredes, as escritas "PCC", "1533", que indica a 15ª (P) e a 3ª (C) letra do alfabeto, e "157", artigo de roubo no Código Penal, são as mais recorrentes.

Assim como as escritas no banheiro, uma breve história contada por um aluno da minha sala também deixa em dúvida se o crime era verdade ou ficção para ostentar o proibido.

Na quarta-feira um rapaz chegou na sala, sentou atrás de mim e, demonstrando cansaço, falou comigo e com Lucas. "Estou aqui só porque estudo, fui pego pela polícia em um assalto e fiquei o dia todo algemado, me soltaram agora graças à escola".

Não quis começar a questioná-lo naquele momento. Esperei para ver qual seria a reação e as perguntas do colega. Não houve. E o rapaz se levantou e saiu. "Preciso ir embora, hoje tá foda". 

Eu precisava perguntar mais sobre ele, entender a história e contá-la. Mas não tive mais oportunidade. Na quinta-feira ele deu uma rápida passada na sala e não foi na sexta-feira. Minha semana na escola terminou e ficaram esse e muitos outros pontos de interrogação.

Escola aberta, mas não literalmente

Em entrevista ao R7, o secretário-geral de Educação do Estado disse que o governo está em um processo de revisão de como a escola deve ser utilizada.

O secretário destacou que a porta da escola deve estar aberta para atender todos que querem estudar, mas isso não significa o livre acesso de todas as pessoas. "E isso não é contraditório", disse.

“O portão de entrada do espaço educacional precisa ter um controle. Nossas falas às escolas é de que façam o possível para os jovens estarem matriculados. O que não orientamos é deixarem os portões literalmente abertos, porque quando o portão fica literalmente aberto, pode entrar pessoas e coisas que não deveriam entrar”, afirmou.

De acordo com Rocha, 1.500 escolas do Estado de São Paulo contam, atualmente, com sistema de vídeo-câmeras com monitoramento centralizado a partir da Secretaria Estadual de Educação. As demais unidades também têm câmeras, mas não são centralizadas. “A ideia é que todas sejam monitoradas”.

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Reportagem: Kaique Dalapola 
Edição: Tatiana Chiari
Desenho e Arte: Matheus Vigliar