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Rogério Guimarães, da Record TV

Reencontrar a Lucélia 15 anos depois foi um grande presente que eu recebi. Acho que recompensa é a palavra que resume melhor o nosso reencontro.

Tudo começou com um telefonema, três meses antes, depois de eu conseguir o número profissional dela em suas redes sociais. Havia tanta expectativa nessa conversa que até gravamos a ligação. Confesso que eu temia ter caído no esquecimento da Lucélia. Desde que foi libertada, em março de 2008 (veja a imagem abaixo), ela deu centenas, senão milhares, de entrevistas a inúmeros jornalistas, programas de televisão, de rádio, jornais impressos, veículos de comunicação até do exterior, todos interessados em conversar com aquela menina.

Ela estampou manchetes e seu nome correu o mundo. E então resolvemos resgatar a história para uma produção original do PlayPlus e mostrar a grande virada que ocorreu na vida da goiana, entregue pela mãe para viver um sonho de menina rica mas que amargou um terrível pesadelo.

O documentário é finalista do prêmio Content Innovation Awards 2023. O vencedor será divulgado em cerimônia em Cannes, na França, no dia 18 de outubro.

https://img.r7.com/images/lucelia-06102023143426082
Reprodução



Desta vez, a ênfase não seria no relato das torturas que sofreu na casa dos empresários de Goiânia, mas no lugar em que ela conseguiu se estabelecer tantos anos depois. Lucélia alcançou seu maior sonho na vida: formar uma família. Ela se casou, é mãe de três lindos garotinhos e está muito bem resolvida em suas emoções quanto a todo o sofrimento que passou naquela cobertura no Setor Marista, bairro de classe média alta.

Mas é claro que a dor que ela passou apareceu com muita força nas nossas entrevistas. Foi inevitável.


Era uma terça-feira bem quente em Aparecida de Goiânia, na região metropolitana da capital goiana, quando chegamos à casa da Lucélia, eu e minha equipe, já ansiosa para conhecer pessoalmente a menina de quem eu tanto falei nas nossas reuniões até começarem as gravações. Eu, Mariane Salerno, Leonardo Medeiros e Wagner Alves. Sem eles não haveria esse documentário.

Toquei o interfone, e a própria Lucélia atendeu e veio nos recepcionar. Quando abriu o portão, desses fechados de aço, fui pego de surpresa. A menina Lucélia agora tem quase a minha altura, 1,80 metro, possui os olhos cheios de vida e força e uma alegria que não passa, ao contrário, se espalha para quem está por perto. Ali, ainda no portão, ela me disse: “Agora eu lembro de você, perfeitamente”. Então, por dentro, pude dizer: "Que alívio, meu Deus".

Do portão ela nos guiou para conhecer a casa. Passamos por todos os cômodos. É uma residência espaçosa, confortável: a cozinha fica nos fundos, com uma bancada acolhedora e organizada para sempre receber as pessoas que ela tanto ama.

Recostado na pia ao lado do fogão, eu tive de falar da dimensão da minha alegria em ver aonde ela chegou. Ela sorriu e também se alegrou comigo ao lembrar de suas muitas conquistas, que não chegaram fácil, mas chegaram, e deu graças a Deus. A todo momento ela demonstrou uma gratidão profunda por sua “vida de milagres”, como ela gosta de destacar, e não encobriu a força que encontrou na fé para se manter firme ao longo de todos esses anos.

Recostado na pia ao lado do fogão, eu tive de falar da dimensão da minha alegria em ver onde ela chegou. Ela sorriu e também se alegrou comigo ao lembrar de suas muitas conquistas, que não chegaram fácil, mas chegaram

Rogério Guimarães, repórter da Record TV, sobre o reencontro com Lucélia



Com os pais biológicos sob investigação na fase policial do processo e ela podendo contar apenas com um abrigo como opção para viver — no meio daquele tumultuado período de prisão, guarda, inquérito, cobertura da imprensa —, o juiz da Infância e da Juventude da época, Maurício Porfírio, autorizou que Lucélia fosse morar com um casal em Belo Horizonte, Marcos e Ezenete Rodrigues. Ela viveu na capital mineira por quase um ano e retornou, com liberação da Justiça, para morar com o pai, Lourenço da Silva, a quem ela ama de paixão.

O repórter da Record TV Rogério Guimarães (Reprodução)
O repórter da Record TV Rogério Guimarães Reprodução



O caminho da nossa jornada ali havia começado da melhor maneira possível. Na área externa da casa, coberta, e com uma mesa imensa de jantar, nos sentamos para uma longa entrevista. Ela lembrou da boa intenção da mãe, na época divorciada do pai, em deixar a única menina de três filhos morando no apartamento de alto padrão da patroa da irmã, como forma de ajudar a menina a ter um futuro melhor. Recordou que a mãe era muito pobre na época e viu no convite da empresária uma oportunidade riquíssima.

O começo foi como o prometido, só após o aniversário de 12 anos, em novembro de 2007, a história ganhou outro enredo. Lucélia até hoje não sabe explicar ao certo o que fez a chave virar na cabeça da mãe adotiva, mas ela sabe que os dias que passou ali foram os piores de sua vida.

Em resumo aqui, mas em detalhes no Playplus, a investigação descobriu que ela só podia ficar na área de serviço do apartamento, era castigada com torturas quando não fazia os serviços domésticos conforme a vontade da mãe adotiva e foi tirada do colégio onde estudava para não ter as marcas no corpo descobertas. Porém um dia um vizinho descobriu. Não as marcas, mas a ausência repetida de Lucélia no horário de ir para a aula. Começava o caminho de libertação.



O efeito teve início com uma ligação anônima para a polícia. Investigadores foram até o local. Ao chegarem ao apartamento, pediram para entrar, mas foram impedidos num primeiro momento. Depois, quem estava na casa aceitou liberar a entrada dos policiais, porém uma porta trancada chamou a atenção dos agentes, aquela que dava acesso à área de serviço.

Após a ordem para abri-la, um grito sufocado de socorro chegou até os ouvidos da investigadora Jussara. Ela teve de administrar em questão de segundos a vontade de libertar aquela criança e a necessidade de documentar com imagens o que estava presenciando para comprovar depois no inquérito aquela cena aterrorizante.

Lucélia estava amarrada pelos braços numa escada de acesso à caixa-d’água do prédio, com as pontas dos pés encostando no chão, e na boca havia trapos de tecido para que não conseguisse falar nem gritar. Os investigadores ligaram para a delegada Adriana Accorsi, que determinou a condução imediata dos donos da casa até a delegacia. Nesse ínterim, a mãe adotiva chegou ao prédio e recebeu voz de prisão em flagrante. A empregada doméstica da casa também foi presa por participar das torturas, segundo ela, a mando da patroa.

A empresária Silvia Calabresi, condenada a quase 15 anos (Reprodução)
A empresária Silvia Calabresi, condenada a quase 15 anos Reprodução



Foi no dia seguinte à libertação da Lucélia que eu tive a honra de entrar na história dela. Eu ainda era repórter da Record TV Goiás, tinha 27 anos e recebi a missão de descobrir em que conselho tutelar ela estava abrigada. A intenção era tentar uma entrevista, mesmo que com algum responsável por ela naquele momento.

Foi no dia seguinte à libertação da Lucélia que eu tive a honra de entrar na história dela. Eu ainda era repórter da Record TV Goiás, tinha 27 anos e recebi a missão de descobrir em que conselho tutelar ela estava abrigada

Rogério Guimarães, repórter da Record TV

O cinegrafista Eustáquio Nunes (Arquivo pessoal)
O cinegrafista Eustáquio Nunes Arquivo pessoal

Saímos, eu e o cinegrafista Eustáquio Nunes, para essa cobertura. Infelizmente, ele não poderá ver o documentário, porque faleceu em 2021, de Covid-19. Era um super-repórter cinematográfico, dedicado, caprichoso, as cores de suas imagens eram um deleite para os meus olhos. Tinha muita experiência e foi um grande parceiro — predicados que eu tive o prazer de falar pessoalmente a ele enquanto trabalhávamos juntos. Saudade do Eustáquio, meu Deus!

Lucélia com a mãe, Joana, na época do crime
 (Reprodução)
Lucélia com a mãe, Joana, na época do crime Reprodução

Foi com o Eustáquio que encontrei a Lucélia no primeiro conselho tutelar em que paramos, e ali, com autorização da diretora do local, gravamos a entrevista com a menina, sem que se identificasse, com trancinhas no cabelo, usando uma roupa de colégio, chinelo de dedo nos pés, as unhas ainda escuras pelos hematomas da violência que sofreu, e a língua cortada. Foi uma tarde dolorosa para a gente: ouvir o que havia no coração daquela menina ainda cheio de medo e, sobretudo, prestar atenção a tudo o que ela falava, não me perder nas minhas emoções e relatar com fidelidade a versão do maior interessado em tudo o que estava acontecendo naqueles dias: a menina Lucélia.

Lembramos dessa entrevista juntos, mostrei a ela a gravação. Ela se emocionou e tratou a si mesma em terceira pessoa, lamentando toda a dor e sofrimento que “aquela” menina passou. Lucélia chorou, e nos abraçamos novamente, como naquele março de 2008.

O repórter Rogério Guimarães e Lucélia, no reencontro (Reprodução)
O repórter Rogério Guimarães e Lucélia, no reencontro Reprodução



Mas esse não foi o momento de maior dor para Lucélia. Ir até a casa da mãe biológica dela, falar desse assunto, frente a frente, foi um desafio com peso de reconciliação. Descobrimos que essa conversa franca nunca havia acontecido até então. Lucélia já tinha decidido perdoar a mãe, colocar um ponto-final no caso, mas nunca quis entender a fundo o que realmente aconteceu naquela época.

E foi esse entendimento que pudemos presenciar, com muito aperto no coração. Ela deixou claro em vários momentos que jamais cobrou os pais pelo que aconteceu, nunca os culpou ou os condenou; por isso, falar assim, cara a cara com a mãe, que a entregou para a empresária, foi tão difícil. Houve desabafos, acertos, revelações e emoções que as duas, mãe e filha, ainda não tinham vivido.

Lucélia com a mãe biológica, Joana (Reprodução)
Lucélia com a mãe biológica, Joana Reprodução



Também visitamos o pai da Lucélia e os irmãos, de quem ela cuida hoje como se fossem filhos. Com o pai, vimos uma relação de afeto genuína. Seu Lourenço ainda sofre pelo que a filha passou e chora, suspira, demonstra nas entrelinhas uma medida de culpa por não ter resgatado a menina daquele apartamento. Um sentimento de culpa que Lucélia a todo tempo desqualifica e entra em cena para trazer o pai de volta para a atual realidade — e enxergar o passado apenas como um triste capítulo que não pode mais surtir efeito naquela família. 

Lucélia com o pai, Lourenço
 (Reprodução)
Lucélia com o pai, Lourenço Reprodução



A transformação de vida que enche os olhos de quem vê. Era uma família fragilizada por dificuldades que tocavam todas as áreas de uma casa (finanças, relacionamento, emoções, sonhos) e que hoje está num patamar que produz esperança e alegria. O terceiro filho da Lucélia nasceu após as nossas gravações.



Assim como eu, ela tem três meninos. Crianças que amam estar com sua mãe e que adoram a comida que a Lucélia faz. Descobrimos isso também. A menina Lucélia, hoje com 26 anos, é ótima para cozinhar, coloca sabor em seus pratos e insiste para todo mundo repetir. O marido, Histenyo, também gosta de preparar a mesa e fazer declarações de amor inusitadas à esposa. Formam uma linda família.

Quanto à mãe adotiva, ela já cumpriu a pena e toca sua vida em Goiânia. Fomos atrás dela para o documentário. Vale muito a pena conferir.

Obrigado, Lucélia, por compartilhar a virada de sua vida como nunca antes mostrado ao público.


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