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Robson Machado, especial para o R7

Diz a lenda que, em meados de 1950, uma família tentou ocupar a Ilha Furtada, localizada em Mangaratiba, município da Costa Verde, no estado do Rio de Janeiro, distante 8 km do continente. A família teria levado alguns gatos para habitarem com ela no local. Como a experiência não deu certo, eles voltaram para o continente. Mas deixaram para trás os gatos.

Ao longo dos anos, eles se reproduziram na ilha e, distante do ambiente urbano, alguns se tornaram selvagens. Em 2012, a população de gatos na ilha foi estimada em 250 animais.

Oito anos depois, a Supan (Subsecretaria de Proteção e Bem Estar Animal do Estado do Rio de Janeiro), que faz esses cálculos, projetou que 750 gatos vivem no local.

A área se tornou um ponto de descarte de animais desprezados pelos seus donos – um crime ambiental com previsão de pena de detenção de três meses a um ano, além de multa.

Todo esse cenário, construído nos últimos 70 anos, fez com que a Ilha Furtada passasse a ser conhecida como Ilha dos Gatos.   

No final de junho, o R7 foi convidado a fazer parte de uma expedição formada por veterinários, especialistas em resgate e alguns ativistas em proteção animal. A ação foi organizada pela Supan e a reportagem embarcou nessa aventura para conhecer a ilha.

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Robson Machado/R7

Lendas e mistérios ajudaram a construir a história da Ilha dos Gatos. Alguns moradores de Itacuruçá, distrito de Mangaratiba de onde partiu a expedição, dizem que não desembarcam por lá de jeito nenhum. O motivo? Medo!

Não é o caso da protetora de animais Joyce Puchallski, responsável pelo grupo de ativistas Coração Animal. A situação dos bichos na ilha só não é pior porque voluntários como Joyce visitam o local periodicamente para cuidar dos animais.

“Nessa ilha, não tem água, não tem comida e não tem habitantes"
Joyce Puchalski, protetora dos animais

Em pontos estratégicos, os voluntários improvisam abrigos e montam reservatórios de ração. Até um sistema de captação de água da chuva foi improvisado, a fim de que os gatos tenham o que beber. A ilha não tem fonte de água potável.

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Robson Machado/R7

Para a expedição, o grupo de ativistas conseguiu um pouco mais. Com a ajuda de um artesão local e o patrocínio de pequenos empresários da região, casinhas de madeira foram construídas e deixadas na ilha. Pelo menos, durante o inverno, os gatos terão onde se abrigar.

“Nessa ilha não tem água, não tem comida e não tem habitantes. Eles [os gatos] estão confinados. Nós todos sabemos as dificuldades e as maldades que estão acontecendo por lá”, alerta a protetora Joyce Puchalski.

Um outro problema causado pela enorme população de gatos na ilha é o desequilíbrio na fauna local. Capivaras, cutias, pacas, lagartos e aves migratórias dividem o mesmo habitat e a presença dos gatos provoca um desajuste na cadeia alimentar.

E a comida? Os felinos comem os ovos e os filhotes de pássaros. Já os lagartos, se alimentam dos próprios felinos. Essa cadeia alimentar não é comum nem na natureza nem para o ecossistema da ilha, uma vez que os gatos não deveriam estar aqui, conforme explica Rose Viviane Costa, a veterinária da Subsecretaria de Proteção e Bem Estar Animal escalada para acompanhar a expedição.

“São animais que foram largados à própria sorte e acabaram causando um mal estar pra eles, além de se tornarem um problema de saúde pública. Eles não são selvagens. Se tornaram selvagens diante da condição em que foram deixados”, explica.

"Esses gatos não são selvagens. Se tornaram selvagens diante da condição em que foram deixados”
Rose Viviane Costa, veterinária da Subsecretaria de Proteção e Bem Estar Animal escalada para acompanhar a expedição
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Robson Machado/R7

O cenário descrito pela veterinária se comprova com o flagrante registrado pela reportagem. Marcele Veloso, uma das protetoras de animais que acompanharam a expedição, foi atacada por um dos gatos no momento em que tentava resgatá-lo para submeter o bicho à análise da veterinária. Agressivo, o animal mordeu o dedo da ativista, que chegou a sangrar.

“Eu fui tentar pegar o filhote e claro que ele iria reagir. Sem querer, ele me mordeu. Eu amo os bichos e o que eu puder fazer por eles farei. Vou levar um desses filhotes para casa. Eu tenho 10 bichos em casa: hamster, gato, cachorro... eu já levei até um cavalo para casa”, revela.

Por conta da mordida no dedo, Marcele foi encaminhada a uma unidade médica da região, onde recebeu uma dose da vacina antirrábica.

A situação dos animais que habitam a Ilha dos Gatos preocupa a Subsecretaria de Proteção e Bem Estar Animal do Estado do Rio de Janeiro, conforme relata a titular da pasta, Karla de Lucas.

“Há necessidade de a gente reduzir essa quantidade castrando esses animais. Eles precisam de cuidados, precisam de uma adoção", diz.

Logo em seguida, Karla cobra a sociedade para lutar contra o abandono de animais. "Não descarte! Como nós, eles também sentem fome, frio, medo. Nós temos cerca de 3 milhões de animais abandonados no estado do Rio de Janeiro. E com essa pandemia, houve um aumento de 40% no índice de abandono”, finaliza.

"Temos cerca de 3 milhões de animais abandonados no estado do Rio de Janeiro"
Karla de Lucas, subsecretária de Proteção e Bem Estar Animal do Estado do Rio de Janeiro

Arredios, e alguns até selvagens, os gatos continuam isolados na ilha. Sem o hábito do convívio humano e num comportamento bem diferente dos gatos domesticados, os animais simplesmente evitaram o contato com a expedição logo que desembarcamos na ilha. Preferiram se embrenhar na mata fechada.

Os poucos animais que os veterinários conseguiram resgatar foram levados para o continente, onde receberão tratamento e, em seguida, um novo lar, porque serão adotados. Esses poucos sortudos - provavelmente - não voltarão mais à Ilha dos Gatos.


Edição: Raphael Hakime
Reportagem: Robson Machado, especial para o R7
Arte: Sabrina Cessarovice
Fotos: Robson Machado, especial para o R7
Imagens: Robson Machado, especial para o R7
Edição de vídeo: Fabiana Martino